mercredi 23 septembre 2015

O Outono cheira a maçã.
Reineta, verde, estaladiça.
E sabe ao seu puré que se come num primeiro deleite doce , um segundo aconchego de palato macio e um terceiro  arrepio ácido que faz de cada átomo bucal  um praticante,  viciado, dos mais sublimes, múltiplos, consecutivos,  orgasmos papilares...

lundi 8 juin 2015

Hoje, primeiro dia de grande praia.
As obras no paredão deixaram pedrinhas afiadas e traiçoeiras logo ali à saída da nova escada chique e de degraus baixinhos, fácil de subir e mais fácil ainda de descer. Então aquele arrepio habitual de "pé na areia ao fim de tanto tempo" não se produziu. O primeiro (pé) picou-se numa lasca. Mas não foi grave. Só um susto.
Estava aquele cheiro a maresia morna e doce.
E a gaze de neblina fininha.
E o mar calmo e quente.
E ninguém dentro do circulo de 10 metros de raio, cujo centro era só eu.
A areia em consistência ideal para se deixar moldar pelas convexidades de mim.  E quando tudo encaixado é aquele suspiro de paraíso.
Paz absoluta.
Sorte a minha.

samedi 30 mai 2015

Foi hoje eutanasiado.
Era  Alentejano.
Sorna.
Ladrava sentado. No entanto levantava-se quando me via.
Levava-me ao portão e esperava.
Deitado, sempre.
Quando eu voltava,  acompanhava-me relva fora, em trote elegante, sempre ao meu lado até perto da porta de casa.
Era altissimo.
Por impossibilidade de lhe dar a mão, punha-a no seu  cachaço e lá iamos nós, dois namorados momentaneos. 
A poucos metros da porta, acelerava o trote de tal forma que a minha mão escorria-lhe até à ponta da cauda, felpuda, macia. Era uma festa prolongada.
Dava meia volta e deitava-se.
Dificil será o amanhã e a moldura da janela da cozinha sem ele.


samedi 11 avril 2015

Há momentos da minha vida nos quais tenho a cabeça tão efervescente de dúvidas, pensamentos paralelos, certezas, opiniões, raivas, angustias, e mais duvidas....  É quando me apetece  parar, sentar-me, derrubar as mãos no colo e deixar as idéias voarem até que se encaixem. Nunca experimentei porque me irrita estar quieta muito tempo ou parada a "olhar  para o ar". E também porque sinto que se o fizer há acontecimentos, pessoas, ventos, cheiros  que passam e eu nem dou por eles. No entanto, muita da minha  vida,  quando estou em fase de cerebração/preocupação acelerada,  passa-me ao lado na mesma:
Hoje entrei numa garagem onde costumo pôr o carro quando  vou àquele prédio. Estacionei no sítio habitual que, nem sei como, está sempre à minha espera. É num cantinho e tem de se fazer um esforço para encaixar. E é longe dos elevadores. Deve ser isso. As pessoas querem sair à porta deles. 
Não me lembro de mais nada. Sei que o que lá fui fazer correu bem pois que trouxe para casa o que lá fui buscar. Inteiro. No entanto, quando "acordei" já dentro do carro, enchi-me de pânico porque não encontrava o ticket de pagamento. 
Depois foi aquela cena horrível de rabo para o ar a vasculhar a escuridão das entranhas do bicho motorizado, o despejar a carteira, o quase rasgar bolsos por força de querer encontrar a folhinha dentro de um deles,  o sair e ir à maquina que dá os bilhetes para ver se me teria caído quando o retirei...
E estava mesmo nesta fase, a apanhar papéis do chão datados de ontem, quando me apareceu um segurança a quem eu perguntei, desesperada: 
 "Que dia é hoje? Acho que perdi o meu ticket mas não é nenhum destes que são datados de 9". 
Ele olhou-me compassivamente, sorriu quase em ternura  e respondeu: 
"Pode sair minha senhora. As cancelas estão abertas. Estragaram-se ontem ao fim do dia.". 
E eu estúpida, a ver-me absolutamente patética:
"Ah! Então estavam abertas quando eu entrei!"
"Pois deviam estar, sim, minha senhora" ....