lundi 8 juin 2015

Hoje, primeiro dia de grande praia.
As obras no paredão deixaram pedrinhas afiadas e traiçoeiras logo ali à saída da nova escada chique e de degraus baixinhos, fácil de subir e mais fácil ainda de descer. Então aquele arrepio habitual de "pé na areia ao fim de tanto tempo" não se produziu. O primeiro (pé) picou-se numa lasca. Mas não foi grave. Só um susto.
Estava aquele cheiro a maresia morna e doce.
E a gaze de neblina fininha.
E o mar calmo e quente.
E ninguém dentro do circulo de 10 metros de raio, cujo centro era só eu.
A areia em consistência ideal para se deixar moldar pelas convexidades de mim.  E quando tudo encaixado é aquele suspiro de paraíso.
Paz absoluta.
Sorte a minha.

samedi 30 mai 2015

Foi hoje eutanasiado.
Era  Alentejano.
Sorna.
Ladrava sentado. No entanto levantava-se quando me via.
Levava-me ao portão e esperava.
Deitado, sempre.
Quando eu voltava,  acompanhava-me relva fora, em trote elegante, sempre ao meu lado até perto da porta de casa.
Era altissimo.
Por impossibilidade de lhe dar a mão, punha-a no seu  cachaço e lá iamos nós, dois namorados momentaneos. 
A poucos metros da porta, acelerava o trote de tal forma que a minha mão escorria-lhe até à ponta da cauda, felpuda, macia. Era uma festa prolongada.
Dava meia volta e deitava-se.
Dificil será o amanhã e a moldura da janela da cozinha sem ele.


samedi 11 avril 2015

Há momentos da minha vida nos quais tenho a cabeça tão efervescente de dúvidas, pensamentos paralelos, certezas, opiniões, raivas, angustias, e mais duvidas....  É quando me apetece  parar, sentar-me, derrubar as mãos no colo e deixar as idéias voarem até que se encaixem. Nunca experimentei porque me irrita estar quieta muito tempo ou parada a "olhar  para o ar". E também porque sinto que se o fizer há acontecimentos, pessoas, ventos, cheiros  que passam e eu nem dou por eles. No entanto, muita da minha  vida,  quando estou em fase de cerebração/preocupação acelerada,  passa-me ao lado na mesma:
Hoje entrei numa garagem onde costumo pôr o carro quando  vou àquele prédio. Estacionei no sítio habitual que, nem sei como, está sempre à minha espera. É num cantinho e tem de se fazer um esforço para encaixar. E é longe dos elevadores. Deve ser isso. As pessoas querem sair à porta deles. 
Não me lembro de mais nada. Sei que o que lá fui fazer correu bem pois que trouxe para casa o que lá fui buscar. Inteiro. No entanto, quando "acordei" já dentro do carro, enchi-me de pânico porque não encontrava o ticket de pagamento. 
Depois foi aquela cena horrível de rabo para o ar a vasculhar a escuridão das entranhas do bicho motorizado, o despejar a carteira, o quase rasgar bolsos por força de querer encontrar a folhinha dentro de um deles,  o sair e ir à maquina que dá os bilhetes para ver se me teria caído quando o retirei...
E estava mesmo nesta fase, a apanhar papéis do chão datados de ontem, quando me apareceu um segurança a quem eu perguntei, desesperada: 
 "Que dia é hoje? Acho que perdi o meu ticket mas não é nenhum destes que são datados de 9". 
Ele olhou-me compassivamente, sorriu quase em ternura  e respondeu: 
"Pode sair minha senhora. As cancelas estão abertas. Estragaram-se ontem ao fim do dia.". 
E eu estúpida, a ver-me absolutamente patética:
"Ah! Então estavam abertas quando eu entrei!"
"Pois deviam estar, sim, minha senhora" ....

samedi 4 avril 2015

Há Festival do Mexilhão na Praia das Maçãs. 
Já ontem havia e eu resmunguei, sozinha,  pelo raio do povo que desceu ao mar. E, tanto!,  por estar em engarrafamento de longos minutos e  não conseguir lugar onde largar o carro.
Hoje despachei-me cedinho para conseguir lá andar sem gente, interiormente sorrindo (embalada pelo sol brilhante e o cheiro a maresia que parece nos chegar às meninges, embrulhado na neblina fresca da manhã ) por me lembrar do tempo em que,  quando vim para estas bandas, veraneante, migrada  da África de muitos amigos, me chocava o gelo da água e me aborrecia a pasmaceira de falta de gente. Quando ela aparecia, aos fins-de-semana e no mês de Agosto, alguém cá de casa vociferava contra a invasão e eu não entendia como se  podia não gostar de sítios animados.
E também me lembrei de um dia, alguns anos mais tarde,  num verão de oitentas e tais, quando o povo começou a ter mais 'posses' à conta da CEE e passaram todos a ter carro e carta:
Ia eu para a praia, num desses dias de Agosto, muito atulhado de automóveis e de atoalhados ao pescoço das pessoas, com uma amiga - filha de familia beirã aristocrata,rica e à época  'aspirante' a viscondessa por via do casamento  -. A qual, depois de me ouvir furiosa:
- "Pronto agora temos o povo todo com carro e a descobrir a praia"
me respondeu numa voz tranquila e assertiva: 
- "Oh! Não seja assim. Ainda bem que vêm. Eles têm tanto direito como nós."
Actualmente já é viscondessa e continua serena e assertiva, simples, sem peneiras e muito querida.  É a prova viva de que há um link directo entre a Nobreza e o Povo. 
É ela que me aparece, qual grilo do Pinóquio, sempre,  quando sou tomada por esta pedantice burguesa. 

E entretanto a minha veia de “anthro” pergunta-se porque será isto dos mexilhões na Páscoa. Antigamente vendiam-nos em bancas montadas estrada fora, ao sol nos dias em que ele aparecia, cheios de moscas e ressequidos ao fim da tarde. Actualmente é isto dos festivais - e julgo que este foi organizado pela Junta de Freguesia com o apoio da Escola de Hotelaria que existe em Colares- . Ao menos estão debaixo de uma tenda e , espero, devidamente acondicionados.
Relacionar-se-á, talvez, com a proibição de consumo de carne nestes dias da Semana Santa e com o facto dos ditos mexilhões estarem no auge do crescimento e ao alcance das mãos dos apanhadores, depois da marés grandes e ondas gigantescas do Inverno? Hei-de saber.