mercredi 1 avril 2015

A mania de pôr pão na relva, à frente de porta da cozinha, para os pássaros se servirem, acabou.
Hoje à hora do almoço - que é também a hora do casal de melros, condóminos do meu jardim, depenicar - vi um vulto, espreitei a ver qual deles era e apareceu-me uma jovem ratazana, lustrosa, de focinho pontiagudo e enormes e redondos olhos pretos que olhou para mim, deu uns saltinhos de coreógrafo russo, parou para pegar no bocado de pão maior e seguiu calmamente , mas sempre ao estilo Misha  Baryshnikov, para trás dos arbustos. E daí a bocadinho estava de volta. Tipo animal absolutamente domesticado. 
Só não fico tão triste porque será a maneira de nunca mais ter de aturar  um casal de rolas dengosas e estúpidas que já se julgavam donas de tudo e aterravam logo de manhã,  despudoradamente, tomando todo o espaço, apesar das investidas furiosas da melra gorda. Estúpidas e atrevidas e teimosas. Dei-lhes mangueiradas matinais, bati palmas, pensei arranjar uma espingarda de chumbos mas elas fugiam irritantes para o fio da MEO que me atravessa o céu do jardim e ficavam de cabeça ao lado, bicos de mulher metediça e olhinhos desafiadores,  esperando a minha saída para se despenharem em ruído de asas pesadas. Adeus rolas. 

lundi 30 mars 2015

Apesar de tantos invernos passados e tantas primaveras a entrar e tanta sabedoria de vida que já devia dar-me um savoir faire tranquilizante, acontece-me, a cada ano,  uma espécie de 'desespero primaveril' a seguir à euforia do fim do inverno, quando chega este calor que nos abre os poros e nos dá vida. O qual (desespero) ocorre à hora em que tenho de escolher roupa para vestir.....Ou porque já usei/vesti/calcei aquilo três anos seguidos, ou porque é de verão, ou porque é de inverno, ou porque vou ter calor, ou porque vou ter frio, ou porque já não se usa (mas o que é que se usa este ano que eu nem sei?), ou porque são botas e as botas são de inverno, ou porque para sandálias ainda é cedo, ou porque as calças são muito estreitas e não ficam bem com aqueles sapatos, ou porque é decotado, ou que estou branquissima ...
Dilemas existenciais gravíssimos e saudades de quando na minha vida não havia estações , e andávamos quase nus, todos os dias, todos os anos.
A propósito, vi há dias uma fotografia, de meados dos anos 60 do século passado, na qual um grupo de casais, amigos dos meus pais - uma ou duas das senhoras  eram 'tias' daquelas chatinhas, cheias de regras e de 'parece-mal' - se encontram em poses cerimoniosas, próprias de conversas sérias, sentados em circulo, numa varanda de uma maravilhosa casa no Mussulo,  numas confortáveis cadeiras de bom design, todos em fatos de banho. Eles de pernas peludas, traçadas,  em calçõezinhos curtos. Elas muito direitas e compostas mas em pré nudez.
Outros tempos, mágicos.  Outras gentes, muito especiais. 

vendredi 27 mars 2015

Cheguei!!
Voltei ao azul turquesa do céu de Março....e à facilidade com que espalho manteiga, finalmente amolecida, num pão branco.
Mais um poucochinho de calor e é a bem-aventurança de sentir a pele a abrir e o calor a entranhar.
..e as frésias todas flloridas e o jasmim a começar.
Obrigada Vida!!

vendredi 20 mars 2015

Ontem fui ao teatro

Momento colorido, iluminado, trepidante. 
Actores maravilhosamente vestidos.
Cenário que nos permite mergulharmos numa espécie de quadro dos realistas americanos. 
Parece 'leve' mas é uma parábola brutal e pesada. Do palco, e transmitidos em frenesim de actores, levamos murros de ganância, desonestidades,   tentativas de recriação de identidade - frustradas pela inevitabilidade de a termos fatalmente colada à nossa pele e à nossa alma por anos primários de 'enculturação'-. E desistência .  
Mas o mais chocante é a hipocrisia. 



(fotografia roubada aqui: http://www.espalhafactos.com/2015/03/15/albano-jeronimo-ajuda-nos-a-compreender-pirandello/)