A mania de pôr pão na relva, à frente de porta da cozinha, para os pássaros se servirem, acabou.
Hoje à hora do almoço - que é também a hora do casal de melros, condóminos do meu jardim, depenicar - vi um vulto, espreitei a ver qual deles era e apareceu-me uma jovem ratazana, lustrosa, de focinho pontiagudo e enormes e redondos olhos pretos que olhou para mim, deu uns saltinhos de coreógrafo russo, parou para pegar no bocado de pão maior e seguiu calmamente , mas sempre ao estilo Misha Baryshnikov, para trás dos arbustos. E daí a bocadinho estava de volta. Tipo animal absolutamente domesticado.
Só não fico tão triste porque será a maneira de nunca mais ter de aturar um casal de rolas dengosas e estúpidas que já se julgavam donas de tudo e aterravam logo de manhã, despudoradamente, tomando todo o espaço, apesar das investidas furiosas da melra gorda. Estúpidas e atrevidas e teimosas. Dei-lhes mangueiradas matinais, bati palmas, pensei arranjar uma espingarda de chumbos mas elas fugiam irritantes para o fio da MEO que me atravessa o céu do jardim e ficavam de cabeça ao lado, bicos de mulher metediça e olhinhos desafiadores, esperando a minha saída para se despenharem em ruído de asas pesadas. Adeus rolas.
