Apesar de tantos invernos passados e tantas primaveras a entrar e tanta sabedoria de vida que já devia dar-me um savoir faire tranquilizante, acontece-me, a cada ano, uma espécie de 'desespero primaveril' a seguir à euforia do fim do inverno, quando chega este calor que nos abre os poros e nos dá vida. O qual (desespero) ocorre à hora em que tenho de escolher roupa para vestir.....Ou porque já usei/vesti/calcei aquilo três anos seguidos, ou porque é de verão, ou porque é de inverno, ou porque vou ter calor, ou porque vou ter frio, ou porque já não se usa (mas o que é que se usa este ano que eu nem sei?), ou porque são botas e as botas são de inverno, ou porque para sandálias ainda é cedo, ou porque as calças são muito estreitas e não ficam bem com aqueles sapatos, ou porque é decotado, ou que estou branquissima ...
Dilemas existenciais gravíssimos e saudades de quando na minha vida não havia estações , e andávamos quase nus, todos os dias, todos os anos.
A propósito, vi há dias uma fotografia, de meados dos anos 60 do século passado, na qual um grupo de casais, amigos dos meus pais - uma ou duas das senhoras eram 'tias' daquelas chatinhas, cheias de regras e de 'parece-mal' - se encontram em poses cerimoniosas, próprias de conversas sérias, sentados em circulo, numa varanda de uma maravilhosa casa no Mussulo, numas confortáveis cadeiras de bom design, todos em fatos de banho. Eles de pernas peludas, traçadas, em calçõezinhos curtos. Elas muito direitas e compostas mas em pré nudez.
Outros tempos, mágicos. Outras gentes, muito especiais.

