vendredi 13 mars 2015

E aqui está a do meu pai, no próprio dia em que a mulher, à espera de um filho, o deixara em Luanda ...

Luchinha querida,                                                                                                         L. 12.VI.50


São quase 6 e meia e deves estar ainda muito tonta da viagem, provavelmente bastante moída; os meus desejos mais ardentes são que a viagem tenha sido razoável e que vocês todos tenham chegado sem emperro.
Depois de te deixar fui para a Caridade onde operei mais uma hérnia, calma e proficientemente. Quando acabei aquele trabalhinho pensei em ti e o meu coração apertou-se – partiras há menos de 2 horas e já me sentia saudoso! Na consulta fartei-me de ver doentes; tive para cima de trinta e como cheguei tarde foram despachados em grande velocidade. Verdade se diga que nenhum deles apresentava queixas extraordinárias. Só o trivial…
Ao almoço gramei a Elsa e uma série de mixórdias que me souberam pessimamente. Depois do café que nem me soube bem sem a vossa companhia,(...) fui outra vez à Pensão Siriva (?) e desisti de vez de me mudar para lá. Aquilo não me serve e se não arranjar melhor prefiro pagar aqui os 80$00 por dia (de resto para ficar lá decentemente levam-me o mesmo ou menos 10.00 e não vale a pena sacrificar-me!). Mas antes de sair à procura de novos aposentos, lembrei-me de fazer a mala e a alturas tantas da operação, tive ganas de ir a Malange puxar-te as orelhas, em sentido figurado bem se vê, pois que a minha vontade era beijar-te de ternura! Sabes que cada vez me convenço mais do que te disse um dia, que és mulher, mãe e filha, tudo como uma nova trindade! Mas reatando: abro uma gaveta e encontro uma série de caixinhas e qual não é o meu espanto ao vê-las ocupadas de jóias! E nem sequer uma palavra… Noutra gaveta, ou coisa semelhante, um embrulho com um casaco desfeito e etc., etc… E as coisas a acumularem-se e eu a ver a mala a encher e aflito sem saber como anichar tudo: ao fim lá se arranjaram as coisas e pareceu-me que caberá tudo quando, daqui a dias, resolver embarcar rumo ao meu amor. Sabes uma coisa? Gosto muito de Ti! E fiquei todo mole cá por dentro quando fui conferir a roupa que o Agostinho trouxe: consolou-me ler aquela meiguice e podes debitar na tua carta mais um kilo de beijos.
E o Taninho como é que se portou? Calculo que valentemente para não desmerecer os pais. Amanhã continuo em busca de instalações mais bonitas. Tentarei escrever-te todos os dias um bocado, de modo a ficares ao corrente do que por cá se passa.
Ao fim da tarde e mesmo sem ter tido dor de cabeça, fui fazer uma picada no dedo e estive mais de 1 h a ver se encontrava algum bichinho; nem eu nem o analista vimos nada. Hoje estou bem disposto e estaria feliz se te tivesse ao pé de mim a dizer maluquices…
Até amanhã amorzinho. Cuida de ti e vai olhando pelos Pais. Milhões de beijos, e amor e a ternura do marido amigo

António Maria

mercredi 11 mars 2015

Fará em Junho 65 anos que a minha mãe foi para Angola. Tinha 22 anos e era, absolutamente, "menina de Lisboa". Esperava o seu primeiro filho que, sem ecografias, sabia tratar-se de um António como o pai dele.  
Depois de um par de dias em Luanda onde o meu pai permaneceu à espera de "lugar",  foi, com a sogra, de combóio, para Malanje onde o sogro era Director do Hospital. 
O meu avô, médico pela Universidade de Coimbra e aventureiro migrado para Moçambique em 1920, tinha sido "deslocado" pelo Governo Central para a Costa Ocidental  porque, segundo rezavam os sussurros familiares, teria pertencido a um grupo apoiante da autonomia da colónia numa época em que todo o território limítrofe se viu "libertado" do poder central inglês.  
Esta foi a primeira carta que escreveu ao marido, depois de ter chegado a Malanje:

Malange, 13 de Junho, 950
Amor querido,
Primeiro dia sem ti, passado a pensar no que te há-de trazer! “Taninho”, que ontem não tugiu nem mugiu, chocalhadíssimo durante 423 kms, manifesta-se animadamente e, com tão limitado poder de expressão, quer dizer na sua, que também lhe faz falta a habitual “festinha” de boas-noites. “Saudades” não me atrevo a dizer que tenho, já, pois que há pouco mais de 24 horas que te deixei e não há nada que tanto me aborreça que o teu “exageradazinha!” acompanhado dum franzir despresivo de nariz, mas é, muito certa, por paradoxal que pareça, muito real, uma sensação de vasio dentro de mim (!!!). E concordo em absoluto com o filho. Quando vieres, Toino querido, será dia de luminárias, foguetório e charanga, no “panorama subjectivo” e até o Taninho que, coitado, vê passar o dia do Santo Padroeiro, enevoado de aborrecimento, é capaz de embandeirar em arco os domínios que lhe pertencem. – podes entreter-te, desde já, a idealizar as trompas do Sr. Falópio em festões de papel colorido e balõezinhos de St. António pendurados no intestino grosso.
Passemos, no entanto, a factos mais sérios e concretos. A viagem, como aliás era de esperar, foi uma estafadeira d’alto lá com ela, dado o reduzido espaço dos lugares em relação ao meu avantajado perímetro…. Até Catete, mais ou menos, engoli lágrimas sobre lágrimas, disfarcei, conforme pude, a tristeza e maldisse África que nos aparecia de um lado e doutro, infindavelmente plana e amarela, à frente e atrás reduzida a dois “rails” assentes em terra que variava do vermelho ao castanho escuro, passando pelo cinzento. Depois, continuei a engolir lágrimas – abençoados óculos – enquanto iam aparecendo imbondeiros, moitas menos amarelas, perdizes, pássaros de todas as cores possíveis e imagináveis, milhares de borboletas. As lágrimas começaram a ser menos abundantes e as árvores a aumentar de número; e a certa altura concluí que estávamos, mesmo, bem no meio duma floresta de verdade, bananeiras selvagens, árvores altas, trepadeiras, um fiozinho de água a aparecer nos sítios em que a verdura era menos densa , e, para tornar mais perfeito, ainda, o cenário à Tarzan, bandos de macacos e macaquinhos – (...)- aos pinotes pela linha fora. (.....) Na Canhoca, onde chegámos por volta da 1 hora, o Inspector do Sono, que dormira toda a viagem, para dar mais “côr” à categoria, precipitou-se de rolo de papel higiénico na mão, para o W.C. da Estação; explicou-nos depois, que comera cerejas ao pequeno-almoço… Pelo nosso lado, andámos à procura do tão falado “restaurant” até que uma alma caridosa nos indicou um barracão a cair de podre, depois, - horror dos horrores! – foi tratar de esquecer o sítio, de abstrair da companhia e comer, segundo o sábio conselho do Agostinho, o que nos puseram à frente. Por impedimento do W.C., que continuava adjudicado ao Inspector do desarranjo intestinal, utilizámo-nos, a Mãe e eu, de um objecto que também se chama “pe----“, mas tem para cima de 30 cm de altura e uma tampa que, pudicamente, tapa o conteúdo do dito. Aconselho-te a tua utilização quando por lá passares. Depois da Canhoca, plantações de café, seguidas até Malange de campos da capim queimado, e de longe a longe, estaçõezinhas pequeninas e pobres.
À chegada a Malange, “formação” de funcionários dos Serviços de Saúde à espera do Inspector. Não foi a filarmónica por estar de folga (...)
Por falta de quartos no Hotel, fomos dormir à maternidade e aproveitei para ir treinando o físico nos duríssimos colchões de palha….
É tarde, já, e temos de ir entregar a carta ao chauffeur da dresine – Calcula que dormi com cobertor, vesti o casaco “elefante” hoje de manhã e não tenho os pés nada inchados.
E…la suite au prochain numéro.
Beijos para ti, meu Toninho grande; gosto muito de ti e – vá lá…- tenho saudades. Tem cuidado contigo e toma quinino. Vem depressa.
Beijos, beijos e beijos da

Luchinha.

mardi 10 mars 2015

Equilíbrio muito instável



Apanhei-as todas e outras, muitas mais 
( algumas grandes e pesadissimas e, enquanto as trazia a arquejar escada acima, pensava que  me fariam recordar a tarde linda e serena de bonança após tempestade) 
na Praia Grande, quando o mar a descarnou deixando à mostra rochas monumentais e milhares delas espalhadas. 
Pergunto-me ainda agora se as pedras soltas já lá estariam sob a areia ou se foram trazidas pelas ondas que as rolaram até ao ponto de as deixar macias. 
(havia uma expressão assim, "dou-lhe sovas para que amacie..."). 
Macias como veludo. Toco-as e  sinto-me a acariciar a eternidade da Terra.
Tinha-as todas em monte e um dia quis ordená-las. Tentei empilhá-las. Percebi que algumas se aceitam mutuamente e se "colam"instantaneamente mesmo quando eu pressinto que o arredondado não o permite. Até parece ouvir-se um "clac" como de encaixe. Outras repelem-se em absoluto. E outras têm dias: às vezes aceitam-se; às vezes não há persistência que as convença. 
Quando em torre, basta um tremido de ar, um arrepio de sobrado tocado por pé mais pesado, para que se assustem e se escorreguem em despedida estrondosa. 
Este, o da fotografia,  mantém-se há uma semana. 
Foi numa manhã de domingo um bocadinho violenta, digamos que no fim de uma "sova" emocional que as vi espalhadas na mesa e, em jeito de reencontro comigo,  tentei. 
Foi logo à primeira. Acho que quiseram mesmo que me acalmasse. 
Amaciaram-me. 
Olho-as e agradeço-lhes a evidência do equilíbrio apesar de instável. Será, talvez e só, uma questão de vontade. 

samedi 7 mars 2015

Faltam duas semanas para a entrada oficial mas a manhã de hoje autoriza-me a que baixe os ombros  e me desencolha e me sinta abençoada pela luz e o sol e o céu azul e os aviões transformados em giz do deus que anda lá por cima, e pelo primeiro trinado sexy do toutinegra que habita a árvore da minha janela.
Custa-me tanto a afronta do frio.
A minha mãe, que odiava áfrica, costumava referir a enorme falta que lhe fazia a alternância das estações, lá na terra onde havia verão molhado e quente suavizado por um cacimbo igualmente molhado e quase tão quente. Eu que cresci naquilo quero-me cálida e quando não, ao menos, morna.