Luchinha querida, L.
12.VI.50
São
quase 6 e meia e deves estar ainda muito tonta da viagem,
provavelmente bastante moída; os meus desejos mais ardentes são que
a viagem tenha sido razoável e que vocês todos tenham chegado sem
emperro.
Depois
de te deixar fui para a Caridade onde operei mais uma hérnia, calma
e proficientemente. Quando acabei aquele trabalhinho pensei em ti e o
meu coração apertou-se – partiras há menos de 2 horas e já me
sentia saudoso! Na consulta fartei-me de ver doentes; tive para cima
de trinta e como cheguei tarde foram despachados em grande
velocidade. Verdade se diga que nenhum deles apresentava queixas
extraordinárias. Só o trivial…
Ao
almoço gramei a Elsa e uma série de mixórdias que me souberam
pessimamente. Depois do café que nem me soube bem sem a vossa
companhia,(...) fui outra vez à Pensão
Siriva (?) e desisti de vez de me mudar para lá. Aquilo não me
serve e se não arranjar melhor prefiro pagar aqui os 80$00 por dia
(de resto para ficar lá decentemente levam-me o mesmo ou menos 10.00
e não vale a pena sacrificar-me!). Mas antes de sair à procura de
novos aposentos, lembrei-me de fazer a mala e a alturas tantas da
operação, tive ganas de ir a Malange puxar-te as orelhas, em
sentido figurado bem se vê, pois que a minha vontade era beijar-te
de ternura! Sabes que cada vez me convenço mais do que te disse um
dia, que és mulher, mãe e filha, tudo como uma nova trindade! Mas
reatando: abro uma gaveta e encontro uma série de caixinhas e qual
não é o meu espanto ao vê-las ocupadas de jóias! E nem sequer uma
palavra… Noutra gaveta, ou coisa semelhante, um embrulho com um
casaco desfeito e etc., etc… E as coisas a acumularem-se e eu a ver
a mala a encher e aflito sem saber como anichar tudo: ao fim lá se
arranjaram as coisas e pareceu-me que caberá tudo quando, daqui a
dias, resolver embarcar rumo ao meu amor. Sabes uma coisa? Gosto
muito de Ti! E fiquei todo mole cá por dentro quando fui conferir a
roupa que o Agostinho trouxe: consolou-me ler aquela meiguice e podes
debitar na tua carta mais um kilo de beijos.
E
o Taninho como é que se portou? Calculo que valentemente para não
desmerecer os pais. Amanhã continuo em busca de instalações mais
bonitas. Tentarei escrever-te todos os dias um bocado, de modo a
ficares ao corrente do que por cá se passa.
Ao
fim da tarde e mesmo sem ter tido dor de cabeça, fui fazer
uma picada no dedo e estive mais de 1 h a ver se encontrava algum
bichinho; nem eu nem o analista vimos nada. Hoje estou bem disposto e
estaria feliz se te tivesse ao pé de mim a dizer maluquices…
Até
amanhã amorzinho. Cuida de ti e vai olhando pelos Pais. Milhões de
beijos, e amor e a ternura do marido amigo
António
Maria
