Fará em Junho 65 anos que a minha mãe foi para Angola. Tinha 22 anos e era, absolutamente, "menina de Lisboa". Esperava o seu primeiro filho que, sem ecografias, sabia tratar-se de um António como o pai dele.
Depois de um par de dias em Luanda onde o meu pai permaneceu à espera de "lugar", foi, com a sogra, de combóio, para Malanje onde o sogro era Director do Hospital.
O meu avô, médico pela Universidade de Coimbra e aventureiro migrado para Moçambique em 1920, tinha sido "deslocado" pelo Governo Central para a Costa Ocidental porque, segundo rezavam os sussurros familiares, teria pertencido a um grupo apoiante da autonomia da colónia numa época em que todo o território limítrofe se viu "libertado" do poder central inglês.
Esta foi a primeira carta que escreveu ao marido, depois de ter chegado a Malanje:
Malange, 13 de Junho,
950
Amor querido,
Primeiro dia sem ti,
passado a pensar no que te há-de trazer! “Taninho”, que ontem
não tugiu nem mugiu, chocalhadíssimo durante 423 kms, manifesta-se
animadamente e, com tão limitado poder de expressão, quer dizer na
sua, que também lhe faz falta a habitual “festinha” de
boas-noites. “Saudades” não me atrevo a dizer que tenho, já,
pois que há pouco mais de 24 horas que te deixei e não há nada que
tanto me aborreça que o teu “exageradazinha!” acompanhado dum
franzir despresivo de nariz, mas é, muito certa, por paradoxal que
pareça, muito real, uma sensação de vasio dentro de mim (!!!). E
concordo em absoluto com o filho. Quando vieres, Toino querido, será
dia de luminárias, foguetório e charanga, no “panorama
subjectivo” e até o Taninho que, coitado, vê passar o dia do
Santo Padroeiro, enevoado de aborrecimento, é capaz de embandeirar
em arco os domínios que lhe pertencem. – podes entreter-te, desde
já, a idealizar as trompas do Sr. Falópio em festões de papel
colorido e balõezinhos de St. António pendurados no intestino
grosso.
Passemos, no entanto,
a factos mais sérios e concretos. A viagem, como aliás era de
esperar, foi uma estafadeira d’alto lá com ela, dado o reduzido
espaço dos lugares em relação ao meu avantajado perímetro…. Até
Catete, mais ou menos, engoli lágrimas sobre lágrimas, disfarcei,
conforme pude, a tristeza e maldisse África que nos aparecia de um
lado e doutro, infindavelmente plana e amarela, à frente e atrás
reduzida a dois “rails” assentes em terra que variava do vermelho
ao castanho escuro, passando pelo cinzento. Depois, continuei a
engolir lágrimas – abençoados óculos – enquanto iam aparecendo
imbondeiros, moitas menos amarelas, perdizes, pássaros de todas as
cores possíveis e imagináveis, milhares de borboletas. As lágrimas
começaram a ser menos abundantes e as árvores a aumentar de número;
e a certa altura concluí que estávamos, mesmo, bem no meio duma
floresta de verdade, bananeiras selvagens, árvores altas,
trepadeiras, um fiozinho de água a aparecer nos sítios em que a
verdura era menos densa , e, para tornar mais perfeito, ainda, o
cenário à Tarzan, bandos de macacos e macaquinhos – (...)- aos pinotes pela linha fora. (.....) Na Canhoca, onde chegámos por volta da 1 hora, o Inspector do Sono, que dormira toda a viagem, para dar mais “côr”
à categoria, precipitou-se de rolo de papel higiénico na mão, para
o W.C. da Estação; explicou-nos depois, que comera cerejas ao
pequeno-almoço… Pelo nosso lado, andámos à procura do tão
falado “restaurant” até que uma alma caridosa nos indicou um
barracão a cair de podre, depois, - horror dos horrores! – foi
tratar de esquecer o sítio, de abstrair da companhia e comer,
segundo o sábio conselho do Agostinho, o que nos puseram à frente.
Por impedimento do W.C., que continuava adjudicado ao Inspector do
desarranjo intestinal, utilizámo-nos, a Mãe e eu, de um objecto que
também se chama “pe----“, mas tem para cima de 30 cm de altura e
uma tampa que, pudicamente, tapa o conteúdo do dito. Aconselho-te a
tua utilização quando por lá passares. Depois da Canhoca,
plantações de café, seguidas até Malange de campos da capim
queimado, e de longe a longe, estaçõezinhas pequeninas e pobres.
À chegada a Malange,
“formação” de funcionários dos Serviços de Saúde à espera
do Inspector. Não foi a filarmónica por estar de folga (...)
Por falta de quartos
no Hotel, fomos dormir à maternidade e aproveitei para ir treinando
o físico nos duríssimos colchões de palha….
É tarde, já, e temos
de ir entregar a carta ao chauffeur da dresine – Calcula que dormi
com cobertor, vesti o casaco “elefante” hoje de manhã e não
tenho os pés nada inchados.
E…la suite au
prochain numéro.
Beijos para ti, meu
Toninho grande; gosto muito de ti e – vá lá…- tenho saudades.
Tem cuidado contigo e toma quinino. Vem depressa.
Beijos, beijos e
beijos da
Luchinha.
