mercredi 11 mars 2015

Fará em Junho 65 anos que a minha mãe foi para Angola. Tinha 22 anos e era, absolutamente, "menina de Lisboa". Esperava o seu primeiro filho que, sem ecografias, sabia tratar-se de um António como o pai dele.  
Depois de um par de dias em Luanda onde o meu pai permaneceu à espera de "lugar",  foi, com a sogra, de combóio, para Malanje onde o sogro era Director do Hospital. 
O meu avô, médico pela Universidade de Coimbra e aventureiro migrado para Moçambique em 1920, tinha sido "deslocado" pelo Governo Central para a Costa Ocidental  porque, segundo rezavam os sussurros familiares, teria pertencido a um grupo apoiante da autonomia da colónia numa época em que todo o território limítrofe se viu "libertado" do poder central inglês.  
Esta foi a primeira carta que escreveu ao marido, depois de ter chegado a Malanje:

Malange, 13 de Junho, 950
Amor querido,
Primeiro dia sem ti, passado a pensar no que te há-de trazer! “Taninho”, que ontem não tugiu nem mugiu, chocalhadíssimo durante 423 kms, manifesta-se animadamente e, com tão limitado poder de expressão, quer dizer na sua, que também lhe faz falta a habitual “festinha” de boas-noites. “Saudades” não me atrevo a dizer que tenho, já, pois que há pouco mais de 24 horas que te deixei e não há nada que tanto me aborreça que o teu “exageradazinha!” acompanhado dum franzir despresivo de nariz, mas é, muito certa, por paradoxal que pareça, muito real, uma sensação de vasio dentro de mim (!!!). E concordo em absoluto com o filho. Quando vieres, Toino querido, será dia de luminárias, foguetório e charanga, no “panorama subjectivo” e até o Taninho que, coitado, vê passar o dia do Santo Padroeiro, enevoado de aborrecimento, é capaz de embandeirar em arco os domínios que lhe pertencem. – podes entreter-te, desde já, a idealizar as trompas do Sr. Falópio em festões de papel colorido e balõezinhos de St. António pendurados no intestino grosso.
Passemos, no entanto, a factos mais sérios e concretos. A viagem, como aliás era de esperar, foi uma estafadeira d’alto lá com ela, dado o reduzido espaço dos lugares em relação ao meu avantajado perímetro…. Até Catete, mais ou menos, engoli lágrimas sobre lágrimas, disfarcei, conforme pude, a tristeza e maldisse África que nos aparecia de um lado e doutro, infindavelmente plana e amarela, à frente e atrás reduzida a dois “rails” assentes em terra que variava do vermelho ao castanho escuro, passando pelo cinzento. Depois, continuei a engolir lágrimas – abençoados óculos – enquanto iam aparecendo imbondeiros, moitas menos amarelas, perdizes, pássaros de todas as cores possíveis e imagináveis, milhares de borboletas. As lágrimas começaram a ser menos abundantes e as árvores a aumentar de número; e a certa altura concluí que estávamos, mesmo, bem no meio duma floresta de verdade, bananeiras selvagens, árvores altas, trepadeiras, um fiozinho de água a aparecer nos sítios em que a verdura era menos densa , e, para tornar mais perfeito, ainda, o cenário à Tarzan, bandos de macacos e macaquinhos – (...)- aos pinotes pela linha fora. (.....) Na Canhoca, onde chegámos por volta da 1 hora, o Inspector do Sono, que dormira toda a viagem, para dar mais “côr” à categoria, precipitou-se de rolo de papel higiénico na mão, para o W.C. da Estação; explicou-nos depois, que comera cerejas ao pequeno-almoço… Pelo nosso lado, andámos à procura do tão falado “restaurant” até que uma alma caridosa nos indicou um barracão a cair de podre, depois, - horror dos horrores! – foi tratar de esquecer o sítio, de abstrair da companhia e comer, segundo o sábio conselho do Agostinho, o que nos puseram à frente. Por impedimento do W.C., que continuava adjudicado ao Inspector do desarranjo intestinal, utilizámo-nos, a Mãe e eu, de um objecto que também se chama “pe----“, mas tem para cima de 30 cm de altura e uma tampa que, pudicamente, tapa o conteúdo do dito. Aconselho-te a tua utilização quando por lá passares. Depois da Canhoca, plantações de café, seguidas até Malange de campos da capim queimado, e de longe a longe, estaçõezinhas pequeninas e pobres.
À chegada a Malange, “formação” de funcionários dos Serviços de Saúde à espera do Inspector. Não foi a filarmónica por estar de folga (...)
Por falta de quartos no Hotel, fomos dormir à maternidade e aproveitei para ir treinando o físico nos duríssimos colchões de palha….
É tarde, já, e temos de ir entregar a carta ao chauffeur da dresine – Calcula que dormi com cobertor, vesti o casaco “elefante” hoje de manhã e não tenho os pés nada inchados.
E…la suite au prochain numéro.
Beijos para ti, meu Toninho grande; gosto muito de ti e – vá lá…- tenho saudades. Tem cuidado contigo e toma quinino. Vem depressa.
Beijos, beijos e beijos da

Luchinha.

mardi 10 mars 2015

Equilíbrio muito instável



Apanhei-as todas e outras, muitas mais 
( algumas grandes e pesadissimas e, enquanto as trazia a arquejar escada acima, pensava que  me fariam recordar a tarde linda e serena de bonança após tempestade) 
na Praia Grande, quando o mar a descarnou deixando à mostra rochas monumentais e milhares delas espalhadas. 
Pergunto-me ainda agora se as pedras soltas já lá estariam sob a areia ou se foram trazidas pelas ondas que as rolaram até ao ponto de as deixar macias. 
(havia uma expressão assim, "dou-lhe sovas para que amacie..."). 
Macias como veludo. Toco-as e  sinto-me a acariciar a eternidade da Terra.
Tinha-as todas em monte e um dia quis ordená-las. Tentei empilhá-las. Percebi que algumas se aceitam mutuamente e se "colam"instantaneamente mesmo quando eu pressinto que o arredondado não o permite. Até parece ouvir-se um "clac" como de encaixe. Outras repelem-se em absoluto. E outras têm dias: às vezes aceitam-se; às vezes não há persistência que as convença. 
Quando em torre, basta um tremido de ar, um arrepio de sobrado tocado por pé mais pesado, para que se assustem e se escorreguem em despedida estrondosa. 
Este, o da fotografia,  mantém-se há uma semana. 
Foi numa manhã de domingo um bocadinho violenta, digamos que no fim de uma "sova" emocional que as vi espalhadas na mesa e, em jeito de reencontro comigo,  tentei. 
Foi logo à primeira. Acho que quiseram mesmo que me acalmasse. 
Amaciaram-me. 
Olho-as e agradeço-lhes a evidência do equilíbrio apesar de instável. Será, talvez e só, uma questão de vontade. 

samedi 7 mars 2015

Faltam duas semanas para a entrada oficial mas a manhã de hoje autoriza-me a que baixe os ombros  e me desencolha e me sinta abençoada pela luz e o sol e o céu azul e os aviões transformados em giz do deus que anda lá por cima, e pelo primeiro trinado sexy do toutinegra que habita a árvore da minha janela.
Custa-me tanto a afronta do frio.
A minha mãe, que odiava áfrica, costumava referir a enorme falta que lhe fazia a alternância das estações, lá na terra onde havia verão molhado e quente suavizado por um cacimbo igualmente molhado e quase tão quente. Eu que cresci naquilo quero-me cálida e quando não, ao menos, morna.

vendredi 27 février 2015

Hoje lá fui finalmente às compras. Zonza mas absolutamente convicta de que não é uma constipação forte que me impede.
Deixei o carro longe do Supercor, no cimo da avenida,  e, no regresso, tive de largar o carrinho a meio da rampa pois os bofes rebentar-se-iam se eu me atrevesse a dar mais um empurrão nas compras. Acho que cada músculo do meu corpo se recusa a mexer. Peguei só no garrafão de água e subi, largando o resto junto ao prédio, pensando que fazer duas viagens de recolecção é menos dificil do que trazer a caça inteira aos ombros.
Vi , de longe, um homem enorme encostado, quase colado, ao meu carro, no lado do condutor. Achei que estaria a tentar abri-lo mas, ainda de longe, percebi que mexia num telemóvel. Mas tão em cima do carro?? Estranhei e tive medo. 
Abeirei-me com jeitinho e em guarda, meti o garrafão pelo lado do morto rapidamente, tranquei e desci para ir buscar o saco que tinha ficado no carrinho. Voltei a subir, o homem não se mexeu um centimetro. Não estava encostado mas os seus jeans tocavam a dobradiça da porta traseira do "meu" lado. Ou seja, para entrar no carro teria quase de lhe pedir licença. Ele sentiu-me de certeza, a não ser que fosse surdo, voltar a abrir a porta do lado do morto, não me olhou de frente mas os óculos espelhados permitiam-lhe ver-me de lado. 
E continuou sem se mexer.
Voltei a trancar o carro, afastei-me, desci o passeio deserto a essa hora - ou com dois ou três passantes esporádicos, e fui ao supermercado saber se teriam seguranças. Não. Já não têm. 
E agora?? Não vou ligar para a polícia por causa de um homem que se não desencosta.... 
E não é que quando regresso ao passeio, vejo do outro lado da rua três (3!!!) GNRs a cavalo, paulatinamente subindo a avenida ? Esqueci-me que tinha bofes sofredores de gripe e quase corri para chegar, no mesmo tempo que eles, ao sítio onde tinha o carro. O homem ficou-se a olhar para eles, estático, enquanto eu disse bem alto "Importa-se de sair que eu tenho de abrir a porta, por favor?". E zás! Entrei, tranquei-me carreguei na embraiagem - se não o caprichoso não pega- e ala para longe dali. Nem olhei para trás...
Acho que passarei a parcar no parque.