mardi 10 mars 2015

Equilíbrio muito instável



Apanhei-as todas e outras, muitas mais 
( algumas grandes e pesadissimas e, enquanto as trazia a arquejar escada acima, pensava que  me fariam recordar a tarde linda e serena de bonança após tempestade) 
na Praia Grande, quando o mar a descarnou deixando à mostra rochas monumentais e milhares delas espalhadas. 
Pergunto-me ainda agora se as pedras soltas já lá estariam sob a areia ou se foram trazidas pelas ondas que as rolaram até ao ponto de as deixar macias. 
(havia uma expressão assim, "dou-lhe sovas para que amacie..."). 
Macias como veludo. Toco-as e  sinto-me a acariciar a eternidade da Terra.
Tinha-as todas em monte e um dia quis ordená-las. Tentei empilhá-las. Percebi que algumas se aceitam mutuamente e se "colam"instantaneamente mesmo quando eu pressinto que o arredondado não o permite. Até parece ouvir-se um "clac" como de encaixe. Outras repelem-se em absoluto. E outras têm dias: às vezes aceitam-se; às vezes não há persistência que as convença. 
Quando em torre, basta um tremido de ar, um arrepio de sobrado tocado por pé mais pesado, para que se assustem e se escorreguem em despedida estrondosa. 
Este, o da fotografia,  mantém-se há uma semana. 
Foi numa manhã de domingo um bocadinho violenta, digamos que no fim de uma "sova" emocional que as vi espalhadas na mesa e, em jeito de reencontro comigo,  tentei. 
Foi logo à primeira. Acho que quiseram mesmo que me acalmasse. 
Amaciaram-me. 
Olho-as e agradeço-lhes a evidência do equilíbrio apesar de instável. Será, talvez e só, uma questão de vontade. 

samedi 7 mars 2015

Faltam duas semanas para a entrada oficial mas a manhã de hoje autoriza-me a que baixe os ombros  e me desencolha e me sinta abençoada pela luz e o sol e o céu azul e os aviões transformados em giz do deus que anda lá por cima, e pelo primeiro trinado sexy do toutinegra que habita a árvore da minha janela.
Custa-me tanto a afronta do frio.
A minha mãe, que odiava áfrica, costumava referir a enorme falta que lhe fazia a alternância das estações, lá na terra onde havia verão molhado e quente suavizado por um cacimbo igualmente molhado e quase tão quente. Eu que cresci naquilo quero-me cálida e quando não, ao menos, morna.

vendredi 27 février 2015

Hoje lá fui finalmente às compras. Zonza mas absolutamente convicta de que não é uma constipação forte que me impede.
Deixei o carro longe do Supercor, no cimo da avenida,  e, no regresso, tive de largar o carrinho a meio da rampa pois os bofes rebentar-se-iam se eu me atrevesse a dar mais um empurrão nas compras. Acho que cada músculo do meu corpo se recusa a mexer. Peguei só no garrafão de água e subi, largando o resto junto ao prédio, pensando que fazer duas viagens de recolecção é menos dificil do que trazer a caça inteira aos ombros.
Vi , de longe, um homem enorme encostado, quase colado, ao meu carro, no lado do condutor. Achei que estaria a tentar abri-lo mas, ainda de longe, percebi que mexia num telemóvel. Mas tão em cima do carro?? Estranhei e tive medo. 
Abeirei-me com jeitinho e em guarda, meti o garrafão pelo lado do morto rapidamente, tranquei e desci para ir buscar o saco que tinha ficado no carrinho. Voltei a subir, o homem não se mexeu um centimetro. Não estava encostado mas os seus jeans tocavam a dobradiça da porta traseira do "meu" lado. Ou seja, para entrar no carro teria quase de lhe pedir licença. Ele sentiu-me de certeza, a não ser que fosse surdo, voltar a abrir a porta do lado do morto, não me olhou de frente mas os óculos espelhados permitiam-lhe ver-me de lado. 
E continuou sem se mexer.
Voltei a trancar o carro, afastei-me, desci o passeio deserto a essa hora - ou com dois ou três passantes esporádicos, e fui ao supermercado saber se teriam seguranças. Não. Já não têm. 
E agora?? Não vou ligar para a polícia por causa de um homem que se não desencosta.... 
E não é que quando regresso ao passeio, vejo do outro lado da rua três (3!!!) GNRs a cavalo, paulatinamente subindo a avenida ? Esqueci-me que tinha bofes sofredores de gripe e quase corri para chegar, no mesmo tempo que eles, ao sítio onde tinha o carro. O homem ficou-se a olhar para eles, estático, enquanto eu disse bem alto "Importa-se de sair que eu tenho de abrir a porta, por favor?". E zás! Entrei, tranquei-me carreguei na embraiagem - se não o caprichoso não pega- e ala para longe dali. Nem olhei para trás...
Acho que passarei a parcar no parque. 

mercredi 25 février 2015

Quinto dia e ainda miserável, embora já respire pelo nariz.
É aquela fase em que me dou conta de como me esqueço que sou mesmo constítuida por matéria bioquímica cujo equilibrio facilmente se altera. E olho para os os outros - os que não espirram, nem tossem, nem têm febre nem os beiços a rebentarem, nem ranhocas nojentas a escorrerem nariz abaixo - em modo de admiração por existirem pessoas "tão bem" e mais, por eu própria já ter estado "assim", saudável e sem sequer  me dar conta da saúde nem dar vivas ao meu estado a cada minuto.
É que ter matéria dá muito trabalho. E canseira.