Apanhei-as todas e outras, muitas mais
( algumas grandes e pesadissimas e, enquanto as trazia a arquejar escada acima, pensava que me fariam recordar a tarde linda e serena de bonança após tempestade)
na Praia Grande, quando o mar a descarnou deixando à mostra rochas monumentais e milhares delas espalhadas.
Pergunto-me ainda agora se as pedras soltas já lá estariam sob a areia ou se foram trazidas pelas ondas que as rolaram até ao ponto de as deixar macias.
(havia uma expressão assim, "dou-lhe sovas para que amacie...").
Macias como veludo. Toco-as e sinto-me a acariciar a eternidade da Terra.
Tinha-as todas em monte e um dia quis ordená-las. Tentei empilhá-las. Percebi que algumas se aceitam mutuamente e se "colam"instantaneamente mesmo quando eu pressinto que o arredondado não o permite. Até parece ouvir-se um "clac" como de encaixe. Outras repelem-se em absoluto. E outras têm dias: às vezes aceitam-se; às vezes não há persistência que as convença.
Quando em torre, basta um tremido de ar, um arrepio de sobrado tocado por pé mais pesado, para que se assustem e se escorreguem em despedida estrondosa.
Este, o da fotografia, mantém-se há uma semana.
Foi numa manhã de domingo um bocadinho violenta, digamos que no fim de uma "sova" emocional que as vi espalhadas na mesa e, em jeito de reencontro comigo, tentei.
Foi logo à primeira. Acho que quiseram mesmo que me acalmasse.
Amaciaram-me.
Olho-as e agradeço-lhes a evidência do equilíbrio apesar de instável. Será, talvez e só, uma questão de vontade.
