samedi 21 février 2015

Absoluta gripe.
Nariz tapado como se lá tivesse enfiado os tampões de não ouvir. Para não cheirar, então.
Mil garras a rasgarem-me a traqueia, 
Espirros, espirros, espirros, boca quente e olhes ardentes. Tosse, tosse, tosse.
Cinco dias. Eu nem quero acreditar que serão cinco dias...
Pacho de álcool no peito. Fico sem pele mas amanhã estarei melhor. Espero.

vendredi 20 février 2015

Tenho um carro novo.
Com mudanças pois não admito não ser eu a saber quando mudar de terceira para segunda. 
Que se mantém mudo e quedo se tento a ignição sem calcar primeiro a embraiagem.
Fenece se paro em ponto morto num semáforo, assustando-me, ainda, pensando que lhe deu um treco repentino. O sobressalto repete-se quando carrego na embraiagem, esquecida, para meter primeira, e ele destata a ronronar sozinho como que por magia.
E acende uma luz se acelero, muito perto, atrás de um carro em andamento. 
É estridente quando arrisco o parqueamento em porções de espaço pequeninas e ainda mais se todos os cintos de cada passageiro não estiverem apertados.
Os faróis sabem de cor quando devem alumiar.
Restam-me definitivamente as mudanças.  
Eu sei que daqui a uns tempos seremos amigos e que cada uma das nossas idiossincrasias se acomodarão.
(...e dá-me um apito à chegada a um espaço de velocidade controlada... )

mercredi 18 février 2015

Fomos visitados, hoje de manhã, por um enormissimo bando de bicos-de-lacre. Mínimos, redondos, lindos, coloridos.
E também duas andorinhas.
Parece que  mais uma Primavera hei-de ver.
É que quando alguma coisa boa está para me acontecer, tenho sempre medo de, antes, morrer.
A ver...

mardi 27 janvier 2015

Hoje, depois de estar imersa na trepidação da Praça do Saldanha  - onde estarreci perante uma coluna em forma de mão gigante que parece sustentar um novo prédio - e em deslumbramento com a gloriosa luz amarela destas tardes de Inverno deste ano, passei para o lado de lá na ponte da Infante Santo, fui tomar um café à Vela Latina, babei ao deitar o olho aos queques mas não lhes toquei e fui andar a pé.

O Tejo não tinha uma só onda. Aquele monstro híbrido que eu tanto vejo no asfalto como dentro de água, chamado Hipo qualquer coisa, passou-me à frente, borbulhando, quase silenciosamente e pela primeira vez, tal era a planura da água - que até me parecia o espelho da baía de Luanda em Domingos de ski -, não achei que desta é que iria ao fundo com os poucos turistas...

Poucos turistas também em terra, dois carros da PSP a quem perguntei porquê a sua inacostumada presença  - respondeu-me um agente, depois de ter olhado para o alto  "Prevenção contra o ataque das gaivotas..." - nem um cigano a vender óculos, nem uma cigana a atirar-me  écharpes manhosas e a desistir quando percebe que sou portuguesa, nem um vislumbre de cheiro a "maresia de Tejo"... 

Um sol amarelo e quentinho, a paz e a gratitude plena por estar viva.

À frente do monumento dos militares caídos em combate,  iniciou-se uma marcha de garbosos rapazes, acho que da Marinha. Simultaneamente, o toque respectivo. Habituada que estive, anos a fio na minha meninice, aos toques todos das portas de quartéis no topo do Alvalade luandense, procurei o militar da corneta. Nada. Nem um à vista.  
Agora é gravado. 
Que pena faltar aquela, sempre presente, nota desafinada...

vendredi 23 janvier 2015

Hoje estive numa enorme sala de espera de um Centro de Saúde. Parecia a nave de uma igreja. Com cadeiras laterais. Sentei-me numa. Maçadissima porque antevia uma longa espera. 
À minha frente uma visão grandiosa de lugares - bons para meditação - em simetria. 
Metade virados para um altar à esquerda , cuja mesa era  ocupada por dois funcionários sisudos,  e um painel luminoso com os números - das senhas - a piscarem, no lugar do sacrário. E dois cartões A4: "Não interrompa o serviço. Para tirar dúvidas tem de utilizar uma senha". 
Nas missas também não se interrompe. 
A outra metade - de lugares - virados para a direita, sem mesa de altar, mas com painel/sacrário ao fundo, e luzes piscantes.
Percebi que os contemplativos do lado esquerdo estavam para consulta. Os do direito estavam para vacinação.
Os meus olhos caíram num senhor - quarentão, barba rala, anafadinho - que eu só via a três quartos mas o suficiente para acompanhar o trabalho eficaz de um dos seus dedos indicadores em limpeza nasal profunda. E não só o indicador. O "pai de todos" também ajudava de quando em quando. E o polegar para enrolar o entulho e sacudir displicentemente para o chão. Ao princípio achei graça ao desassombro, depois começou a irritar-me a porcaria. "Nojento homem".
Eis que chega uma mãe de Cabo Verde com uma pequenina de carapuço encarnado. A senhora depositou a filha numa cadeira à frente do homem e a tralha noutra ao lado, para a qual se debruçou afanosamente - percebi depois que para encontrar documentos -. 
Eu, do sítio onde estava, só via o carapuço e os olhos enormes da pequenina. Que se virou para todo o lado, por fim para trás e fixou a cara do limpador. Que já tinha acabado a tarefa. O homem deve ter-lhe feito uma careta porque num repente a menina se virou para a frente muito direita. E depois, devagarinho, para trás outra vez, em olhos grandes, encarou-o... Novo sobressalto e nova tentativa de observação inquisitiva reflectindo incompreensão  ...E fui vendo, deliciada, na expressão do seu olhar, a passagem da surpresa/mêdo para a total cumplicidade convertida num sorriso de olhos que só as crianças têm. E que só têm, com adultos, quando estes são fiáveis.  
Fiz as pazes com o homem. De bruto porco passou a bonacheirão descomplicado. E terno.



mercredi 21 janvier 2015

Quando entro no, agora, Alegro de Alfragide tenho na cabeça o mapa exacto do que era o quê e onde, há muitos anos, quando se inaugurou o Jumbo. Até sei que o gabinete do gerente estava mais ou menos por cima do que é hoje a Benetton. 
E tenho milhares de histórias desse espaço.
Como a de hoje:
Cheguei ao parque e vi um carrinho largado ao Deus dará, coisa que para mim é um sacrilégio. Mas aproveitei-o, claro. A minha consciência paralela reparou nuns papeis no seu fundo, e  decidiu não lhes mexer. Entrei no Centro, lembrei-me que tinha de ir buscar um casaco a uma loja, escondi o carrinho que tinha aproveitado vago e livre, para que ninguém o aproveitasse, despachei tudo no andar de cima, desci com o coração suspenso a pensar que algum segurança pressuroso já resolvera arrumá-lo, mas não.  Estava lá no mesmo sítio. Só, livre, sem moeda na ranhura e ninguém percebeu. Sempre meu e grátis!
E fui às compras de supermercado. Percorrer aqueles quilómetros de corredores e com o dito cada vez mais cheio. 
Depois, na caixa, ao despejar tudo, reparei que o que me parecera um cartão promocional era afinal um chocolate Lindt de laranja.. Delicioso. O "dono" anterior a mim, aquele sacrílego que o tinha largado no meio do nada do parque exterior, esquecera-se do chocolate. 
E agora?
Não o vou pagar porque já está pago.
Não o paguei portanto não é meu. 
Alguém ficará a babar hoje à noite , quando depois do jantar lhe der a volúpia do cacau. Que horror antecipar o "kick" do chocolate e não o ter...
Disse à menina que estava no fundo do carro, de certeza esquecido.
Chamou os colegas da segurança. "É considerado 'um perdido'. Como tal levo-o". E meteu-o ao bolso. 
Ainda troquei duas ou três palavras com a simpática empregada sobre o destino dos perdidos mas fui à vida, Alegro fora.
Depois de despejar tudo outra vez para o porta bagagens, eis que lá do fundo aparece um ticket de compra.
E a minha consciência deixou de ser paralela e mandou-me apanhá-lo. E consultá-lo. 
Voilá. 
Despesa paga com cartão. 
Nome completo do pagante. 
Compras: Whiskas, Ração para cão e....2 LINDTS LARANJA!!!! 
Retornei ao balcão do apoio ao cliente. Expliquei tudo. O senhor disse-me que o comprador tinha cartão Jumbo mas o chocolate já devia estar dentro da loja outra vez.... Eu indignei-me um bocadinho. Ele ligou para um superior, virou-me as costas e esteve minutos em longa conversa. Eu já espumava ligeiramente, cheia de fome e calor e acabei por lhe dizer que ou eu levava o chocolate, deixava a minha identificação e nros de telefone e que me ligassem se o comprador o reclamasse - e se não reclamasse comia-o eu - , ou lhe telefonavam à minha frente para eu ter a certeza de que o desgraçado o comeria . 
E assim foi.
"Estou?, Sr. Luis R... D....? O Senhor esteve no Jumbo, não foi? (acho que o Sr. Luis deve ter pensado que iria levar uma reprimenda por ter deixado o carro fora do sítio...). É que o Senhor comprou dois chocolates mas só levou um. Sim... Venha então levantá-lo ao apoio ao cliente...". 
Não precisei de ouvir mais nada. Disse adeus ao rapaz ainda ele não tinha desligado e segui corredor fora, outra vez...
E, logo, quando deixar derreter um quadrado de chocolate garganta abaixo, lembrar-me-ei da minha "boa acção".

samedi 10 janvier 2015

Almoço cá em casa, de homens. Amigos desde meninos, e meus desde menina.
Um deles divorciado e solteiro. Outro com a vigésima namorada. Outro com a segunda mulher. E outro com a terceira. Só um com a mesma mulher de sempre mas escolhida "fora do grupo".
Eu, a única "antiga", e sempre  tão próxima, embora fisicamente afastada, fui escolhida para que o meu sítio fosse o lugar de comemoração da passagem por Portugal daquele que vive fora e dissera, por email, a sua necessidade de estar com amigos.
Barrigudos - um ou outro -, cabeças brancas, ligeiramente encurvados, sobreviventes de percursos de vida durissimos e profissionalmente vencedores,  juntos convertem-se em (nos meus) rapazinhos quando se riem e se troçam em ternura, ou quando  dizem metade de contos - sabendo da  outra metade só os que vêm do mesmo tempo e espaço -, nos códigos comuns e também silenciosos, nos momentos de quase condescendência pelas mulheres actuais, aparecidas já a vida fora feita e que não sabem tudo deles, pelo menos não sabem dos momentos que os estruturaram.
Ouvi-os, ri-me, quase chorei, deitei algumas achas para a fogueira das suas memórias- assim tipo mnemónicas -.
Cada um não era o de hoje mas, em conjunto,  os de ontem.
E a ternura para comigo, cada uma diferente todavia tão iguais a "dantes" ...
Lucky me.

mercredi 7 janvier 2015

Frio...
De repente toda a gente se fez cágado bípede em carapaça de casacões  e pescoço de écharpes.
E há os que tentam resistir encolhendo para metade o volume corporal, em passinhos rápidos a fugir do frio mas de pernas perras. 

lundi 5 janvier 2015

E persistes em fazer Sintra/Lisboa pela Marginal?
Sim!
Porquê?
Porque a Marginal não é um lugar de passagem. 
Então?
É de paragem.


samedi 3 janvier 2015

Não há Luar com' o de Janeiro
Nem Amor com' o Primeiro.

vendredi 2 janvier 2015

Fiz.
E fartei-me de sonhar. 
Porque, se durmo directas 6 horas sem parar,   deitando-me à 1 da manhã, não me lembro do que vagueei durante o sono quando me levanto às 7 e pouco. 
Mas esta noite, feita a meia dúzia, plim, olhos abertos, vagueei pela casa à procura de água e de sítio para a verter, voltei para a cama, enrosquei-me deliciada no quentinho das penas e a partir daí até às 7:30 foi um sem fim de gente a visitar-me e a obrigar-me a viver situações inesperadas... 
Não é bom. O sono da meia noite tira-me as olheiras mas leva-me a um sobressalto de alma que dura o dia inteiro. 
Porém, decisão de princípio do ano é para cumprir.
E também fui andar a pé. Não ao rio mas à Praça dos Jerónimos, desde o CCB até ao correio e às lojas de Belém. Em arrepios de sol escaldante e sombra gelada.
Espantada com a fila incomensurável de turistas para entrarem no claustro do convento. E perguntando-me como é que se aguenta estar em férias numa terra ensolarada e estacar horas perdidas numa bicha, igual à dos supermercados, como se para comprar batatas. Aconteceu-me uma vez em Bruxelas, tentando ver o recém inaugurado Museu Magritte. Já com bilhetes pré-comprados, percebendo da necessidade de enfileirar para entrar no elevador, dei meia volta e saí. E nem estava sol. Fiquei com pena de não voltar a ver o Empire des Lumières ao vivo mas retenho o (bom) choque que foi dar de caras com ele na minha primeira visita ao Beaux Arts. E tenho uma réplica na parede da cabeceira. 
E pronto. O resto foi bom: pastel de cerveja comprado quase em frente aos gordurosos natas de Belém, alfinete na novissima Missangas e Companhia para fechar bem o poncho que se me abria ao vento frio e negócio fechado com a senhora do correio: ia devolver uma camisolona GAP que encomendara em duplicado, ela achou que ficaria bem ao filho, deu-me o dinheiro respectivo o qual, combinámos, ficará no envelope até á certeza de que lhe serve.
E à tarde Marginal fora, em reflexos de foz do Tejo, até Sintra desfolhada pelo Inverno. E outros, vários, arrepios, porque parei à frente das ruínas de um casarão que dizem ter sido lar de orfãs no princípio do séc XX. O que seria ser orfã, interna, nas brumas da Vila...

(e a senhora do correio telefonou informando que a camisola serve ao filho)

jeudi 1 janvier 2015

É estúpido chegar a esta idade e continuar a fazer "planos de melhoramento pessoal" para o ano que entra. Sobretudo sabendo de antemão que  metade deles não vão ser cumpridos.
Para já, já entrei irritada porque não passei para as novas folhas, imaculadas e direitas sem uma única ruga nem traço, da Mini Filofax  (que persisto em utilizar pois que essa não me cai na água da casa de banho como o telemóvel que continuo a enfiar no bolso de trás das calças)  as datas de anos dos amigos e família extensa. Irrita-me não ter esse "dever" cumprido mesmo sabendo que nem sempre a abro e me perco nos dias.
Hoje e a partir de hoje deitar-me-ei às 11 horas, dormirei o sono da meia noite e irei sempre que não chova andar a pé pelo rio ao menos 3 vezes por semana.
Amanhã escreverei, aqui, se cumpri.

mercredi 12 novembre 2014

Vi-a da rua, de relance, quando eu chegava de carro. 
Encostada a uma janela grande dentro do centro comercial. Tão grande a janela que ela parecia ínfima e de tão encolhida estava magérrima. Chorava. Copiosamente.
Entrei pela porta pesada, hesitei no caminho para a relojoaria mas não resisti e fui à sua procura, ver se ainda lá estava. E sim, estava. Atrás da coluna, a olhar para fora, de lenço na mão e cara molhada. Fingi que me tinha enganado no caminho e que a via por acaso. Parei e
‘Então? Precisa de ajuda? É alguma coisa muito grave?‘
E quando me aproximei vi-a, afinal alta, enorme, nada magra, cara linda, boca inchada de choro mas em meio sorriso conformado.
‘Não’ e limpava a cara. ‘Não é grave’ e sorriu mais abertamente como se o choro fosse tontice mas quase a chorar outra vez. 
Pus-lhe a mão num braço e senti-lhe o calor de mulher plena, aquele calor que só existe numa mulher fértil. Acho que era o calor que eu encontrava na minha mãe.
 ‘Não chore! Não chore tanto! A vida é tão boa não vale a pena gastá-la, assim’.
‘Obrigada’, respondeu-me.

 E afastei-me a fungar, reconhecendo-lhe o desgosto dos dias amargos de desgostos menores e inúteis. 

dimanche 28 septembre 2014

Com a derrota de Seguro acaba-se, julgo eu, aquele grupinho de socialistas "arrumadinhos" e preconceituosos, preocupados com a "imagem", com pouco mundo e a deitar o olho para quem o tem, em modo de aprendizagem tardia embora mantendo a inveja primária de quem se civiliza tarde mas nunca perde o despeito.
Que viva Costa!

mardi 12 août 2014

Abri a janela, cedo, bem cedo, e o azul nascia contrastando com o acobreado, nos pinheiros,  de um sol que prometia. Nesta terra de brumas e 'diverse shades of grey' nunca é cedo para apressar o pequeno almoço tendo em perspectiva uma manhãzinha de praia grande molhando o pé numa maré baixa ensolarada. 
Depois de cumpridos os rituais matinais abri o armário para escolher roupa condigna e achei que as habituais calças compridas, claras, e polo de mangas, também compridas, talvez fossem  excessivamente quentes. Ainda tirei uma túnica fininha. Mas lembrei-me de um dia, no verão passado, na qual me armei em veraneante algarvia e acabei a tiritar de frio, dentro do carro, com ganas de ligar o aquecimento. 
Lá fui, então, com a andaina habitual. Ao subir a rampa passei por uma rapariga, de vestido leve, verde, lindo e uma grande capeline, seguida por duas criancinhas em fato de banho e t'shirt. Pensei "pois era assim que eu devia ter vindo...que ridículo chegar em modo de Outono precoce...".
Arranjei lugar para o carro logo ali. Comecei a descer e mal pisei a areia apareceram, por cima da serra, umas compactas nuvens. Foi o tempo de chegar ao toldo, depositar a tralha e o azul virou cinzento. 
Iniciei e finalizei a caminhada vestida dos pés à cabeça. Houve uns momentos em que os dedos das mãos se arroxearam. Acho que quando começou a cacimbar. Mas deu para me maravilhar com as rochas que reapareceram lá ao fundo, cobertas de um manto de algas cor de beringela e pintalgadas de outras verdes, com mexilhõezinhos a despontar. E passei pela zona chique onde a menina chique estava assente. Enchi-me de pena pelo briol que teria. Afinal eu sei desta praia melhor do que tu, minha pimpona.
E deitei-me por fim a ler "OsTransparentes". Já vou a meio. Rio de ternura e saudade nalguns trechos. Molham-se-me os olhos noutros. Acho que nenhum  autor além de Agustina ou Lobo Antunes conseguiu tão eficazmente provocar-me emoções destas, fortes. Deleite e angústia. Tanta angústia que me apetece largar e não ler mais. Ou então ir ao fim e está feito, agora já sei e este crescendo de sofrimento já sei como acaba. E ironicamente é como se fosse leitora privilegiada porque consigo "ver" o que ele descreve embora não ande pela Maianga há 42 anos. 

mercredi 23 juillet 2014

Hoje ganhei 16 euros no euromilhões.
Fui ver "as sortes" àquela papelaria que está ao lado da taberna dos "cor de ameixa", daquela terra onde se encontram mais miseráveis por centimetro quadrado do que em qualquer outro lugar do mundo português. 

Entrei e lá estava um, encostado ao balcão a olhar para o lado, toldadamente hipnotizado pela traseira de uma das meninas cheínhas. Ela esticava-se em cima de um banco, fazendo arranjos na moldura superior da montra, deixando à mercê do seu (dele) olhar, molhado, uma faixa de lombo, bem revestido de gordurinha, naquela zona que já não é costas nem ainda rabo.
Cheguei-me ao balcão, ela desceu afogueada, e o meu "pensamento paralelo" perguntou-se se seria do calor abafado se da certeza de que o "cliente" a filava por trás.
Ele afastou-se para namorar a máquina do tabaco. Entretanto entrou uma senhora que poderia ser companheira de sua desdita, a menina anunciou em voz alta que eu tinha ganho tanto dinheiro e saí acabrunhada a achar que os 16 euros lhes fazem muita mais falta a eles e que se calhar ficaram a pensar, num pensamento perfeitamente consciente:
"Olha-me esta gaja é que ganha esta f**a deste jogo e a mim não me calha nada.".

Depressões

Fui ao Supercor da Beloura. Espécie de atol da sociedade de consumo num lago quase fantasma.
Tudo fechado. Lojas, restaurantes, a Casa Batalha ainda com os colares e pulseiras, intactos, nas montras. Resta uma perfumaria, uma loja de "utilidades para casa" - que deve estar prestes a fechar porque só lá vi atoalhados -,  uma pequena e central cafetaria com bom serviço e os cinemas, acho.
As escadas a rolarem para meia dúzia de visitantes,
A Lanidor com coisas lindas mas pouco tocadas.
Uma mãe com uma criança no parquinho do escorrega. 
E a minha esperança de que volte a vida àquele espaço. Até sinto falta das senhoras que eu dizia serem mulheres de jogadores de futebol, muito loiras, muito enfeitadas, de pés rotundos e bem tratados a saltarem de sandálias de marca muito chique, compradas lá. 

samedi 19 juillet 2014







Uma semana de permeio. Na Praia Grande.
Esta espécie de lápis - ou de giz? a assinatura do artista não parece dizer "chalk"? -  foi feita no Inverno, após as grandes ondas que levaram areia. Depois o mar devolveu parte. Na semana passada pensei nos arqueólogos que irão descobrir a "pintura rupestre". E fotografei-a em cima de um tapete macio . Uma semana depois voltei à caminhada, parti uma unha do dedão grande do pé ao bater num pedregulho pontiagudo, fotografei a figura au complet e seguramente mais para cima do que no dia em que foi pintada e espantei-me, como sempre, com as toneladas de grãos que andam ao sabor das marés...

mardi 1 juillet 2014

Varanda em princípio de Verão

O mesmo mar infinito.
A areia em palco de actores diversos.
O sol.
Ainda há quem case; os casamentos são rituais de encontros, ou reencontros, coloridos.
E há bebés. Cujos pais deixam as mães dormir, manhã cedo, e tomam para si, só, o encanto das descobertas primárias revendo-se ou redescobrindo a magia das sensações novas.