Hoje estive numa enorme sala de espera de um Centro de Saúde. Parecia a nave de uma igreja. Com cadeiras laterais. Sentei-me numa. Maçadissima porque antevia uma longa espera.
À minha frente uma visão grandiosa de lugares - bons para meditação - em simetria.
Metade virados para um altar à esquerda , cuja mesa era ocupada por dois funcionários sisudos, e um painel luminoso com os números - das senhas - a piscarem, no lugar do sacrário. E dois cartões A4: "Não interrompa o serviço. Para tirar dúvidas tem de utilizar uma senha".
Nas missas também não se interrompe.
A outra metade - de lugares - virados para a direita, sem mesa de altar, mas com painel/sacrário ao fundo, e luzes piscantes.
Percebi que os contemplativos do lado esquerdo estavam para consulta. Os do direito estavam para vacinação.
Os meus olhos caíram num senhor - quarentão, barba rala, anafadinho - que eu só via a três quartos mas o suficiente para acompanhar o trabalho eficaz de um dos seus dedos indicadores em limpeza nasal profunda. E não só o indicador. O "pai de todos" também ajudava de quando em quando. E o polegar para enrolar o entulho e sacudir displicentemente para o chão. Ao princípio achei graça ao desassombro, depois começou a irritar-me a porcaria. "Nojento homem".
Eis que chega uma mãe de Cabo Verde com uma pequenina de carapuço encarnado. A senhora depositou a filha numa cadeira à frente do homem e a tralha noutra ao lado, para a qual se debruçou afanosamente - percebi depois que para encontrar documentos -.
Eu, do sítio onde estava, só via o carapuço e os olhos enormes da pequenina. Que se virou para todo o lado, por fim para trás e fixou a cara do limpador. Que já tinha acabado a tarefa. O homem deve ter-lhe feito uma careta porque num repente a menina se virou para a frente muito direita. E depois, devagarinho, para trás outra vez, em olhos grandes, encarou-o... Novo sobressalto e nova tentativa de observação inquisitiva reflectindo incompreensão ...E fui vendo, deliciada, na expressão do seu olhar, a passagem da surpresa/mêdo para a total cumplicidade convertida num sorriso de olhos que só as crianças têm. E que só têm, com adultos, quando estes são fiáveis.
Fiz as pazes com o homem. De bruto porco passou a bonacheirão descomplicado. E terno.