vendredi 20 février 2015

Tenho um carro novo.
Com mudanças pois não admito não ser eu a saber quando mudar de terceira para segunda. 
Que se mantém mudo e quedo se tento a ignição sem calcar primeiro a embraiagem.
Fenece se paro em ponto morto num semáforo, assustando-me, ainda, pensando que lhe deu um treco repentino. O sobressalto repete-se quando carrego na embraiagem, esquecida, para meter primeira, e ele destata a ronronar sozinho como que por magia.
E acende uma luz se acelero, muito perto, atrás de um carro em andamento. 
É estridente quando arrisco o parqueamento em porções de espaço pequeninas e ainda mais se todos os cintos de cada passageiro não estiverem apertados.
Os faróis sabem de cor quando devem alumiar.
Restam-me definitivamente as mudanças.  
Eu sei que daqui a uns tempos seremos amigos e que cada uma das nossas idiossincrasias se acomodarão.
(...e dá-me um apito à chegada a um espaço de velocidade controlada... )

mercredi 18 février 2015

Fomos visitados, hoje de manhã, por um enormissimo bando de bicos-de-lacre. Mínimos, redondos, lindos, coloridos.
E também duas andorinhas.
Parece que  mais uma Primavera hei-de ver.
É que quando alguma coisa boa está para me acontecer, tenho sempre medo de, antes, morrer.
A ver...

mardi 27 janvier 2015

Hoje, depois de estar imersa na trepidação da Praça do Saldanha  - onde estarreci perante uma coluna em forma de mão gigante que parece sustentar um novo prédio - e em deslumbramento com a gloriosa luz amarela destas tardes de Inverno deste ano, passei para o lado de lá na ponte da Infante Santo, fui tomar um café à Vela Latina, babei ao deitar o olho aos queques mas não lhes toquei e fui andar a pé.

O Tejo não tinha uma só onda. Aquele monstro híbrido que eu tanto vejo no asfalto como dentro de água, chamado Hipo qualquer coisa, passou-me à frente, borbulhando, quase silenciosamente e pela primeira vez, tal era a planura da água - que até me parecia o espelho da baía de Luanda em Domingos de ski -, não achei que desta é que iria ao fundo com os poucos turistas...

Poucos turistas também em terra, dois carros da PSP a quem perguntei porquê a sua inacostumada presença  - respondeu-me um agente, depois de ter olhado para o alto  "Prevenção contra o ataque das gaivotas..." - nem um cigano a vender óculos, nem uma cigana a atirar-me  écharpes manhosas e a desistir quando percebe que sou portuguesa, nem um vislumbre de cheiro a "maresia de Tejo"... 

Um sol amarelo e quentinho, a paz e a gratitude plena por estar viva.

À frente do monumento dos militares caídos em combate,  iniciou-se uma marcha de garbosos rapazes, acho que da Marinha. Simultaneamente, o toque respectivo. Habituada que estive, anos a fio na minha meninice, aos toques todos das portas de quartéis no topo do Alvalade luandense, procurei o militar da corneta. Nada. Nem um à vista.  
Agora é gravado. 
Que pena faltar aquela, sempre presente, nota desafinada...

vendredi 23 janvier 2015

Hoje estive numa enorme sala de espera de um Centro de Saúde. Parecia a nave de uma igreja. Com cadeiras laterais. Sentei-me numa. Maçadissima porque antevia uma longa espera. 
À minha frente uma visão grandiosa de lugares - bons para meditação - em simetria. 
Metade virados para um altar à esquerda , cuja mesa era  ocupada por dois funcionários sisudos,  e um painel luminoso com os números - das senhas - a piscarem, no lugar do sacrário. E dois cartões A4: "Não interrompa o serviço. Para tirar dúvidas tem de utilizar uma senha". 
Nas missas também não se interrompe. 
A outra metade - de lugares - virados para a direita, sem mesa de altar, mas com painel/sacrário ao fundo, e luzes piscantes.
Percebi que os contemplativos do lado esquerdo estavam para consulta. Os do direito estavam para vacinação.
Os meus olhos caíram num senhor - quarentão, barba rala, anafadinho - que eu só via a três quartos mas o suficiente para acompanhar o trabalho eficaz de um dos seus dedos indicadores em limpeza nasal profunda. E não só o indicador. O "pai de todos" também ajudava de quando em quando. E o polegar para enrolar o entulho e sacudir displicentemente para o chão. Ao princípio achei graça ao desassombro, depois começou a irritar-me a porcaria. "Nojento homem".
Eis que chega uma mãe de Cabo Verde com uma pequenina de carapuço encarnado. A senhora depositou a filha numa cadeira à frente do homem e a tralha noutra ao lado, para a qual se debruçou afanosamente - percebi depois que para encontrar documentos -. 
Eu, do sítio onde estava, só via o carapuço e os olhos enormes da pequenina. Que se virou para todo o lado, por fim para trás e fixou a cara do limpador. Que já tinha acabado a tarefa. O homem deve ter-lhe feito uma careta porque num repente a menina se virou para a frente muito direita. E depois, devagarinho, para trás outra vez, em olhos grandes, encarou-o... Novo sobressalto e nova tentativa de observação inquisitiva reflectindo incompreensão  ...E fui vendo, deliciada, na expressão do seu olhar, a passagem da surpresa/mêdo para a total cumplicidade convertida num sorriso de olhos que só as crianças têm. E que só têm, com adultos, quando estes são fiáveis.  
Fiz as pazes com o homem. De bruto porco passou a bonacheirão descomplicado. E terno.