Fomos visitados, hoje de manhã, por um enormissimo bando de bicos-de-lacre. Mínimos, redondos, lindos, coloridos.
E também duas andorinhas.
Parece que mais uma Primavera hei-de ver.
É que quando alguma coisa boa está para me acontecer, tenho sempre medo de, antes, morrer.
A ver...
mercredi 18 février 2015
mardi 27 janvier 2015
Hoje, depois de estar imersa na trepidação da Praça do Saldanha - onde estarreci perante uma coluna em forma de mão gigante que parece sustentar um novo prédio - e em deslumbramento com a gloriosa luz amarela destas tardes de Inverno deste ano, passei para o lado de lá na ponte da Infante Santo, fui tomar um café à Vela Latina, babei ao deitar o olho aos queques mas não lhes toquei e fui andar a pé.
O Tejo não tinha uma só onda. Aquele monstro híbrido que eu tanto vejo no asfalto como dentro de água, chamado Hipo qualquer coisa, passou-me à frente, borbulhando, quase silenciosamente e pela primeira vez, tal era a planura da água - que até me parecia o espelho da baía de Luanda em Domingos de ski -, não achei que desta é que iria ao fundo com os poucos turistas...
Poucos turistas também em terra, dois carros da PSP a quem perguntei porquê a sua inacostumada presença - respondeu-me um agente, depois de ter olhado para o alto "Prevenção contra o ataque das gaivotas..." - nem um cigano a vender óculos, nem uma cigana a atirar-me écharpes manhosas e a desistir quando percebe que sou portuguesa, nem um vislumbre de cheiro a "maresia de Tejo"...
Um sol amarelo e quentinho, a paz e a gratitude plena por estar viva.
À frente do monumento dos militares caídos em combate, iniciou-se uma marcha de garbosos rapazes, acho que da Marinha. Simultaneamente, o toque respectivo. Habituada que estive, anos a fio na minha meninice, aos toques todos das portas de quartéis no topo do Alvalade luandense, procurei o militar da corneta. Nada. Nem um à vista.
Agora é gravado.
Que pena faltar aquela, sempre presente, nota desafinada...
vendredi 23 janvier 2015
Hoje estive numa enorme sala de espera de um Centro de Saúde. Parecia a nave de uma igreja. Com cadeiras laterais. Sentei-me numa. Maçadissima porque antevia uma longa espera.
À minha frente uma visão grandiosa de lugares - bons para meditação - em simetria.
Metade virados para um altar à esquerda , cuja mesa era ocupada por dois funcionários sisudos, e um painel luminoso com os números - das senhas - a piscarem, no lugar do sacrário. E dois cartões A4: "Não interrompa o serviço. Para tirar dúvidas tem de utilizar uma senha".
Nas missas também não se interrompe.
A outra metade - de lugares - virados para a direita, sem mesa de altar, mas com painel/sacrário ao fundo, e luzes piscantes.
Percebi que os contemplativos do lado esquerdo estavam para consulta. Os do direito estavam para vacinação.
Os meus olhos caíram num senhor - quarentão, barba rala, anafadinho - que eu só via a três quartos mas o suficiente para acompanhar o trabalho eficaz de um dos seus dedos indicadores em limpeza nasal profunda. E não só o indicador. O "pai de todos" também ajudava de quando em quando. E o polegar para enrolar o entulho e sacudir displicentemente para o chão. Ao princípio achei graça ao desassombro, depois começou a irritar-me a porcaria. "Nojento homem".
Eis que chega uma mãe de Cabo Verde com uma pequenina de carapuço encarnado. A senhora depositou a filha numa cadeira à frente do homem e a tralha noutra ao lado, para a qual se debruçou afanosamente - percebi depois que para encontrar documentos -.
Eu, do sítio onde estava, só via o carapuço e os olhos enormes da pequenina. Que se virou para todo o lado, por fim para trás e fixou a cara do limpador. Que já tinha acabado a tarefa. O homem deve ter-lhe feito uma careta porque num repente a menina se virou para a frente muito direita. E depois, devagarinho, para trás outra vez, em olhos grandes, encarou-o... Novo sobressalto e nova tentativa de observação inquisitiva reflectindo incompreensão ...E fui vendo, deliciada, na expressão do seu olhar, a passagem da surpresa/mêdo para a total cumplicidade convertida num sorriso de olhos que só as crianças têm. E que só têm, com adultos, quando estes são fiáveis.
Fiz as pazes com o homem. De bruto porco passou a bonacheirão descomplicado. E terno.
mercredi 21 janvier 2015
Quando entro no, agora, Alegro de Alfragide tenho na cabeça o mapa exacto do que era o quê e onde, há muitos anos, quando se inaugurou o Jumbo. Até sei que o gabinete do gerente estava mais ou menos por cima do que é hoje a Benetton.
E tenho milhares de histórias desse espaço.
Como a de hoje:
Cheguei ao parque e vi um carrinho largado ao Deus dará, coisa que para mim é um sacrilégio. Mas aproveitei-o, claro. A minha consciência paralela reparou nuns papeis no seu fundo, e decidiu não lhes mexer. Entrei no Centro, lembrei-me que tinha de ir buscar um casaco a uma loja, escondi o carrinho que tinha aproveitado vago e livre, para que ninguém o aproveitasse, despachei tudo no andar de cima, desci com o coração suspenso a pensar que algum segurança pressuroso já resolvera arrumá-lo, mas não. Estava lá no mesmo sítio. Só, livre, sem moeda na ranhura e ninguém percebeu. Sempre meu e grátis!
E fui às compras de supermercado. Percorrer aqueles quilómetros de corredores e com o dito cada vez mais cheio.
Depois, na caixa, ao despejar tudo, reparei que o que me parecera um cartão promocional era afinal um chocolate Lindt de laranja.. Delicioso. O "dono" anterior a mim, aquele sacrílego que o tinha largado no meio do nada do parque exterior, esquecera-se do chocolate.
E agora?
Não o vou pagar porque já está pago.
Não o paguei portanto não é meu.
Alguém ficará a babar hoje à noite , quando depois do jantar lhe der a volúpia do cacau. Que horror antecipar o "kick" do chocolate e não o ter...
Disse à menina que estava no fundo do carro, de certeza esquecido.
Chamou os colegas da segurança. "É considerado 'um perdido'. Como tal levo-o". E meteu-o ao bolso.
Ainda troquei duas ou três palavras com a simpática empregada sobre o destino dos perdidos mas fui à vida, Alegro fora.
Depois de despejar tudo outra vez para o porta bagagens, eis que lá do fundo aparece um ticket de compra.
E a minha consciência deixou de ser paralela e mandou-me apanhá-lo. E consultá-lo.
Voilá.
Despesa paga com cartão.
Nome completo do pagante.
Compras: Whiskas, Ração para cão e....2 LINDTS LARANJA!!!!
Retornei ao balcão do apoio ao cliente. Expliquei tudo. O senhor disse-me que o comprador tinha cartão Jumbo mas o chocolate já devia estar dentro da loja outra vez.... Eu indignei-me um bocadinho. Ele ligou para um superior, virou-me as costas e esteve minutos em longa conversa. Eu já espumava ligeiramente, cheia de fome e calor e acabei por lhe dizer que ou eu levava o chocolate, deixava a minha identificação e nros de telefone e que me ligassem se o comprador o reclamasse - e se não reclamasse comia-o eu - , ou lhe telefonavam à minha frente para eu ter a certeza de que o desgraçado o comeria .
E assim foi.
"Estou?, Sr. Luis R... D....? O Senhor esteve no Jumbo, não foi? (acho que o Sr. Luis deve ter pensado que iria levar uma reprimenda por ter deixado o carro fora do sítio...). É que o Senhor comprou dois chocolates mas só levou um. Sim... Venha então levantá-lo ao apoio ao cliente...".
Não precisei de ouvir mais nada. Disse adeus ao rapaz ainda ele não tinha desligado e segui corredor fora, outra vez...
E, logo, quando deixar derreter um quadrado de chocolate garganta abaixo, lembrar-me-ei da minha "boa acção".
Inscription à :
Articles (Atom)