Vi-a da rua, de relance, quando eu
chegava de carro.
Encostada a uma janela grande dentro do centro comercial. Tão
grande a janela que ela parecia ínfima e de tão encolhida estava magérrima.
Chorava. Copiosamente.
Entrei pela porta pesada, hesitei
no caminho para a relojoaria mas não resisti e fui à sua procura, ver se ainda
lá estava. E sim, estava. Atrás da coluna, a olhar para fora, de lenço na mão e
cara molhada. Fingi que me tinha enganado no caminho e que a via por acaso. Parei
e
‘Então? Precisa de ajuda? É
alguma coisa muito grave?‘
E quando me aproximei vi-a,
afinal alta, enorme, nada magra, cara linda, boca inchada de choro mas em meio sorriso
conformado.
‘Não’ e limpava a cara. ‘Não é
grave’ e sorriu mais abertamente como se o choro fosse tontice mas quase a
chorar outra vez.
Pus-lhe a mão num braço e senti-lhe o calor de mulher plena,
aquele calor que só existe numa mulher fértil. Acho que era o calor que eu
encontrava na minha mãe.
‘Não chore! Não chore tanto! A vida é tão boa
não vale a pena gastá-la, assim’.
‘Obrigada’, respondeu-me.
E afastei-me a fungar, reconhecendo-lhe o
desgosto dos dias amargos de desgostos menores e inúteis.