mercredi 12 novembre 2014

Vi-a da rua, de relance, quando eu chegava de carro. 
Encostada a uma janela grande dentro do centro comercial. Tão grande a janela que ela parecia ínfima e de tão encolhida estava magérrima. Chorava. Copiosamente.
Entrei pela porta pesada, hesitei no caminho para a relojoaria mas não resisti e fui à sua procura, ver se ainda lá estava. E sim, estava. Atrás da coluna, a olhar para fora, de lenço na mão e cara molhada. Fingi que me tinha enganado no caminho e que a via por acaso. Parei e
‘Então? Precisa de ajuda? É alguma coisa muito grave?‘
E quando me aproximei vi-a, afinal alta, enorme, nada magra, cara linda, boca inchada de choro mas em meio sorriso conformado.
‘Não’ e limpava a cara. ‘Não é grave’ e sorriu mais abertamente como se o choro fosse tontice mas quase a chorar outra vez. 
Pus-lhe a mão num braço e senti-lhe o calor de mulher plena, aquele calor que só existe numa mulher fértil. Acho que era o calor que eu encontrava na minha mãe.
 ‘Não chore! Não chore tanto! A vida é tão boa não vale a pena gastá-la, assim’.
‘Obrigada’, respondeu-me.

 E afastei-me a fungar, reconhecendo-lhe o desgosto dos dias amargos de desgostos menores e inúteis. 

dimanche 28 septembre 2014

Com a derrota de Seguro acaba-se, julgo eu, aquele grupinho de socialistas "arrumadinhos" e preconceituosos, preocupados com a "imagem", com pouco mundo e a deitar o olho para quem o tem, em modo de aprendizagem tardia embora mantendo a inveja primária de quem se civiliza tarde mas nunca perde o despeito.
Que viva Costa!

mardi 12 août 2014

Abri a janela, cedo, bem cedo, e o azul nascia contrastando com o acobreado, nos pinheiros,  de um sol que prometia. Nesta terra de brumas e 'diverse shades of grey' nunca é cedo para apressar o pequeno almoço tendo em perspectiva uma manhãzinha de praia grande molhando o pé numa maré baixa ensolarada. 
Depois de cumpridos os rituais matinais abri o armário para escolher roupa condigna e achei que as habituais calças compridas, claras, e polo de mangas, também compridas, talvez fossem  excessivamente quentes. Ainda tirei uma túnica fininha. Mas lembrei-me de um dia, no verão passado, na qual me armei em veraneante algarvia e acabei a tiritar de frio, dentro do carro, com ganas de ligar o aquecimento. 
Lá fui, então, com a andaina habitual. Ao subir a rampa passei por uma rapariga, de vestido leve, verde, lindo e uma grande capeline, seguida por duas criancinhas em fato de banho e t'shirt. Pensei "pois era assim que eu devia ter vindo...que ridículo chegar em modo de Outono precoce...".
Arranjei lugar para o carro logo ali. Comecei a descer e mal pisei a areia apareceram, por cima da serra, umas compactas nuvens. Foi o tempo de chegar ao toldo, depositar a tralha e o azul virou cinzento. 
Iniciei e finalizei a caminhada vestida dos pés à cabeça. Houve uns momentos em que os dedos das mãos se arroxearam. Acho que quando começou a cacimbar. Mas deu para me maravilhar com as rochas que reapareceram lá ao fundo, cobertas de um manto de algas cor de beringela e pintalgadas de outras verdes, com mexilhõezinhos a despontar. E passei pela zona chique onde a menina chique estava assente. Enchi-me de pena pelo briol que teria. Afinal eu sei desta praia melhor do que tu, minha pimpona.
E deitei-me por fim a ler "OsTransparentes". Já vou a meio. Rio de ternura e saudade nalguns trechos. Molham-se-me os olhos noutros. Acho que nenhum  autor além de Agustina ou Lobo Antunes conseguiu tão eficazmente provocar-me emoções destas, fortes. Deleite e angústia. Tanta angústia que me apetece largar e não ler mais. Ou então ir ao fim e está feito, agora já sei e este crescendo de sofrimento já sei como acaba. E ironicamente é como se fosse leitora privilegiada porque consigo "ver" o que ele descreve embora não ande pela Maianga há 42 anos. 

mercredi 23 juillet 2014

Hoje ganhei 16 euros no euromilhões.
Fui ver "as sortes" àquela papelaria que está ao lado da taberna dos "cor de ameixa", daquela terra onde se encontram mais miseráveis por centimetro quadrado do que em qualquer outro lugar do mundo português. 

Entrei e lá estava um, encostado ao balcão a olhar para o lado, toldadamente hipnotizado pela traseira de uma das meninas cheínhas. Ela esticava-se em cima de um banco, fazendo arranjos na moldura superior da montra, deixando à mercê do seu (dele) olhar, molhado, uma faixa de lombo, bem revestido de gordurinha, naquela zona que já não é costas nem ainda rabo.
Cheguei-me ao balcão, ela desceu afogueada, e o meu "pensamento paralelo" perguntou-se se seria do calor abafado se da certeza de que o "cliente" a filava por trás.
Ele afastou-se para namorar a máquina do tabaco. Entretanto entrou uma senhora que poderia ser companheira de sua desdita, a menina anunciou em voz alta que eu tinha ganho tanto dinheiro e saí acabrunhada a achar que os 16 euros lhes fazem muita mais falta a eles e que se calhar ficaram a pensar, num pensamento perfeitamente consciente:
"Olha-me esta gaja é que ganha esta f**a deste jogo e a mim não me calha nada.".