Abri a janela, cedo, bem cedo, e o azul nascia contrastando com o acobreado, nos pinheiros, de um sol que prometia. Nesta terra de brumas e 'diverse shades of grey' nunca é cedo para apressar o pequeno almoço tendo em perspectiva uma manhãzinha de praia grande molhando o pé numa maré baixa ensolarada.
Depois de cumpridos os rituais matinais abri o armário para escolher roupa condigna e achei que as habituais calças compridas, claras, e polo de mangas, também compridas, talvez fossem excessivamente quentes. Ainda tirei uma túnica fininha. Mas lembrei-me de um dia, no verão passado, na qual me armei em veraneante algarvia e acabei a tiritar de frio, dentro do carro, com ganas de ligar o aquecimento.
Lá fui, então, com a andaina habitual. Ao subir a rampa passei por uma rapariga, de vestido leve, verde, lindo e uma grande capeline, seguida por duas criancinhas em fato de banho e t'shirt. Pensei "pois era assim que eu devia ter vindo...que ridículo chegar em modo de Outono precoce...".
Arranjei lugar para o carro logo ali. Comecei a descer e mal pisei a areia apareceram, por cima da serra, umas compactas nuvens. Foi o tempo de chegar ao toldo, depositar a tralha e o azul virou cinzento.
Iniciei e finalizei a caminhada vestida dos pés à cabeça. Houve uns momentos em que os dedos das mãos se arroxearam. Acho que quando começou a cacimbar. Mas deu para me maravilhar com as rochas que reapareceram lá ao fundo, cobertas de um manto de algas cor de beringela e pintalgadas de outras verdes, com mexilhõezinhos a despontar. E passei pela zona chique onde a menina chique estava assente. Enchi-me de pena pelo briol que teria. Afinal eu sei desta praia melhor do que tu, minha pimpona.
E deitei-me por fim a ler "OsTransparentes". Já vou a meio. Rio de ternura e saudade nalguns trechos. Molham-se-me os olhos noutros. Acho que nenhum autor além de Agustina ou Lobo Antunes conseguiu tão eficazmente provocar-me emoções destas, fortes. Deleite e angústia. Tanta angústia que me apetece largar e não ler mais. Ou então ir ao fim e está feito, agora já sei e este crescendo de sofrimento já sei como acaba. E ironicamente é como se fosse leitora privilegiada porque consigo "ver" o que ele descreve embora não ande pela Maianga há 42 anos.


