Ao fim da manhã, tão contente com o vento do rio que subia a Avenida da Torre de Belém, cruzei-me com dezenas de mulheres vestidas de laranja, calças de licra, nikes quebrados, canejas do esforço da maratona - ou lá o que foi de onde elas estavam a vir - suadissimas, cabelos desalinhados, olhares desesperados. Não sei porque é que ainda se metem em correrias que supostamente são por prazer e acabam sempre com esgares de sofrimento e atitudes nada vencedoras, nem satisfeitas, nem triunfantes.
À tarde, descendo a mesma avenida vejo o prado da Torre de Belém preenchido de barraquinhas feias e milhares de gente. Na relva e a caminho dela. É o Out Jazz, disseram-me. "Gente feia", respondi. "São alternativos", esclareceram. Uma invasão deles. Mas uma alternativa deveria sempre ser para melhor. Neste caso o que se via em cima da ponte que liga a Av. da India à Brasilia era uma fila ininterrupta, uma mancha em movimento, de gente cuja alternativa foi, seguramente, pior. (E há pouco ainda pensava, desiludida, que julgava sofisticado o público de Jazz.). Fui à Estrela e voltei. E no caminho saltou-me para o colo uma enorme selfie em tamanho outdoor daquele senhor que tem ar de iluminado inteligente e arrogância de yuppie da política: Francisco Assis. Eles e os seus compagnons de campanha. Não vi quem eram os outros mas pareceram-me numa aura de glamour Hollywoodesco. A ver como vão ser os óscares...
Acabei o dia na fila do drive do McDonald's. Para satisfazer um desejo domingueiro de um dos rapazinhos da família. Há que anos não cumpria este ritual. Esperava a aparição de uma menina ou menino logo a seguir à esquina, caneta em punho e bloco de notas e afinal assustei-me com uma coluna falante, em eco de sotaque crioulo, incompreensivel. E quando, mais à frente, se abriu a janela do pagamento, o bafo que me rodeou foi uma nuvem da Maianga ao fim da tarde, no início dos idos anos setenta da era colonialista. Enquanto não vinha a entrega do manjar, olhei pelo retrovisor. Atrás de mim um senhor em 'camiseta' de basquete, daquelas sem mangas, tipo camisa interior do tempo dos meus avós. Gordo, sozinho, contrariando a média de frequentadores que, por alto, era de um casal e dois rebentos. "Olha, este está sozinho" pensei eu. E ele, parecendo que lera o meu pensamento, sentiu-se à vontade, meteu o dedo no nariz, sacou um burrié, enrolou-o meticulosamente.... e eu fiquei aliviada por o ter antecedido na digitação do código na máquina do multibanco.
Quando cheguei a casa a primeira coisa que fiz foi lavar as mãos, pelo sim pelo não.