É um orgulho, sempre, perceber que há portugueses notáveis.
Mas fico hesitante com as declarações de Maria de Medeiros:http://madame.lefigaro.fr/celebrites/maria-de-medeiros-conscience-sensible-140314-844782 Diz que a família foi viver para Viena para "échapper à la dictature de Salazar.". No entanto se abrirmos notas biográficas referentes ao seu pai, http://www.meloteca.com/musicos-compositores.htm#almeida dizem-nos que ele foi para Áustria com uma bolsa de estudo paga pelo Instituto de Alta Cultura http://pt.wikipedia.org/wiki/Instituto_de_Alta_Cultura
Enfim, houve "perseguidos" ou "refugiados" ou o que seja, que foram muito bem tratados pelo Estado Novo, apesar de "fugirem" dele....
samedi 10 mai 2014
jeudi 8 mai 2014
Se querem aferir a relação de um casal antigo – de há muuuuuuitos anos – acho que será bom manda-lo ao IKEA comprar uma simples estante, levá-la para casa e montá-la a dois.
1. Entrada no parque. O primeiro corredor, vazio, fica para trás enquanto ela diz “podes arrumar aqui que está vaziiiiiii…..”. Passam o segundo corredor; finalmente ele guina e entra no terceiro que se encontra completo. “Está ali ao fundo um a sair” diz ela, nervosa…
Entram na porta de vidro, para as escadas . Ele pára e deixa-a passar, pisam a par as escadas rolantes e riem-se com o rabo de uma que vai à frente, ao nível do nariz dela.
2. Ela pergunta a uma menina simpática onde é o “departamento” das estantes para ir lá depressa e sem hesitações. A menina responde que tem de seguir as setas. Ela fica furiosa mas ele agarra-lhe o braço e anda para a frente
3. Ela irrita-se com o caminho obrigatório e atravessa o espaço dos sofás em diagonal deixando-o perdido no caminho das setas…Mas ele continua com o seu ar de príncipe, mesmo que atarantado, e encontram-se um pouco mais à frente.
4. Ao fim de voltas e voltas encontram as estantes. Escolhem. Ela muito profissional tira a agenda e a caneta. Ele afasta-se. Uma gaja estupida mete-se á frente dela e põe-se de cócoras a espreitar e tirar as referencias; ela estremece com uma irritação mas acocora-se também, escreve conscienciosamente, levanta-se e ele, que entretanto se reaproximara, diz muito delicado: “Mas tens a certeza que é essa a estante?” Ela olha e afinal não é. Risca tudo e volta a escrever direito.
5. Retomam o caminho das setas. Ela apanha um carrinho ”é melhor levar já um que depois pode não haver quando chegarmos ao grand canion das embalagens”. “Deixa estar que eu levo” diz ele. Ultrapassam dificilmente senhoras aos pares que falam da vida em vez de comprarem almofadas ou copos. Param nos ditos - copos - a ver se ele quer alguns daqueles baldes para o tintol. Ela vai ao outro lado da sala. Quando regressa ele está de olhar perdido. “Não consegues escolher ?” Gargalhadas sem fim. De ambos.” Vamos ao Brás e Brás se ainda houver…Mas o José Alexandre é que seria bom… “.
6. Ela enjoa-se com o cheiro a bedum de algumas meninas de cabelo seboso. Sente-se como as grávidas em jejum. E refila. E começa a ficar ansiosa por não perceber onde está o norte e por achar que anda às voltas e não chega ao fim. “Se não estivesses comigo, acho que já estava em pânico”.
7. Ele pergunta, pela terceira vez, mais ou menos baixinho: “Mas tu tens a certeza que não há carrinhos à saída?", cansado do rally entre pernas, e embalagens e pessoas tão perdidas como eles.
8. E chegam às embalagens. Claustrofobia aqueles corredores. Mas,convictos, encontram o 4. “Aqui está”. Ela quer ajudar mas não tem força. Ele lá se arranja apesar de lhe doerem as cruzes. A embalagem escorrega e cai estrondosamente dentro do carrinho. Ela arrepia-se. “Cuidado para não se partir alguma tábua”. Tenta endireitar a embalagem, a mão escorrega no cartão lustrado e uma unha dobra-se até à falangeta. “Porra! Já tenho uma unha lixada”. E ele preocupa-se com a unha.
9. Seguem, pagam sozinhos, numa caixa automática e saem triunfantes.
10. “Agora é o elevador”, diz ela. “Se quiseres vai a pé que depois encontramo-nos.”. “Não eu vou contigo”. Odeia. Há um senhor mais velho já à espera, que depois, já dentro do elevador, demora horas, de rabo espetado, à procura do botão. Ele sente-se novíssimo porque indica o botão correcto ao senhor mais velho. À frente está uma menina pequenina, agarrada pela mãe. Dá um pontapé ao senhor do lado. A mãe diz “Oh Sara!”. A criança repete o chuto. ”. “Oh Sara, isso não se faz...” e comenta: ” Isto é tudo uma questão de método educativo!”. Saem do elevador às gargalhadas e ela nem teve tempo para imaginar como seria se ficassem trancados todos lá dentro ou se houvesse um tremor de terra e o mundo desabasse e nunca mais de lá saíssem nem houvesse alguém que os salvasse…
11. Chegam a casa, almoçam e “vamos à montagem” diz ele. E geme. Muito. Tábuas todas iguais, parafusos esquisitíssimos, cartão e cartão e cartão. “Montamos tudo aqui em cima da bancada por causa das costas, vá,” diz ela. “F***-se eu sei lá fazer esta m***a! Para que é que vamos ao IKEA e não pedimos a alguém que nos faça?”. “Vá, isto está tudo explicado. Ora vê…”. “Não é assim, é para baixo”. “Porra agora segura aí, f***se.Isto não encaixa”. E de cada volta num parafuso há qualquer coisa de erótico no gemido que ela lhe ouve… “Eu não disse??? Eu não disse?? Falta uma peça!!!!!”. “Não. Aqui nunca falta nada. Está aqui, vês?”.
12. “Pronto!! Boa!!.... conseguiste e ficou linda!”.
1. Entrada no parque. O primeiro corredor, vazio, fica para trás enquanto ela diz “podes arrumar aqui que está vaziiiiiii…..”. Passam o segundo corredor; finalmente ele guina e entra no terceiro que se encontra completo. “Está ali ao fundo um a sair” diz ela, nervosa…
Entram na porta de vidro, para as escadas . Ele pára e deixa-a passar, pisam a par as escadas rolantes e riem-se com o rabo de uma que vai à frente, ao nível do nariz dela.
2. Ela pergunta a uma menina simpática onde é o “departamento” das estantes para ir lá depressa e sem hesitações. A menina responde que tem de seguir as setas. Ela fica furiosa mas ele agarra-lhe o braço e anda para a frente
3. Ela irrita-se com o caminho obrigatório e atravessa o espaço dos sofás em diagonal deixando-o perdido no caminho das setas…Mas ele continua com o seu ar de príncipe, mesmo que atarantado, e encontram-se um pouco mais à frente.
4. Ao fim de voltas e voltas encontram as estantes. Escolhem. Ela muito profissional tira a agenda e a caneta. Ele afasta-se. Uma gaja estupida mete-se á frente dela e põe-se de cócoras a espreitar e tirar as referencias; ela estremece com uma irritação mas acocora-se também, escreve conscienciosamente, levanta-se e ele, que entretanto se reaproximara, diz muito delicado: “Mas tens a certeza que é essa a estante?” Ela olha e afinal não é. Risca tudo e volta a escrever direito.
5. Retomam o caminho das setas. Ela apanha um carrinho ”é melhor levar já um que depois pode não haver quando chegarmos ao grand canion das embalagens”. “Deixa estar que eu levo” diz ele. Ultrapassam dificilmente senhoras aos pares que falam da vida em vez de comprarem almofadas ou copos. Param nos ditos - copos - a ver se ele quer alguns daqueles baldes para o tintol. Ela vai ao outro lado da sala. Quando regressa ele está de olhar perdido. “Não consegues escolher ?” Gargalhadas sem fim. De ambos.” Vamos ao Brás e Brás se ainda houver…Mas o José Alexandre é que seria bom… “.
6. Ela enjoa-se com o cheiro a bedum de algumas meninas de cabelo seboso. Sente-se como as grávidas em jejum. E refila. E começa a ficar ansiosa por não perceber onde está o norte e por achar que anda às voltas e não chega ao fim. “Se não estivesses comigo, acho que já estava em pânico”.
7. Ele pergunta, pela terceira vez, mais ou menos baixinho: “Mas tu tens a certeza que não há carrinhos à saída?", cansado do rally entre pernas, e embalagens e pessoas tão perdidas como eles.
8. E chegam às embalagens. Claustrofobia aqueles corredores. Mas,convictos, encontram o 4. “Aqui está”. Ela quer ajudar mas não tem força. Ele lá se arranja apesar de lhe doerem as cruzes. A embalagem escorrega e cai estrondosamente dentro do carrinho. Ela arrepia-se. “Cuidado para não se partir alguma tábua”. Tenta endireitar a embalagem, a mão escorrega no cartão lustrado e uma unha dobra-se até à falangeta. “Porra! Já tenho uma unha lixada”. E ele preocupa-se com a unha.
9. Seguem, pagam sozinhos, numa caixa automática e saem triunfantes.
10. “Agora é o elevador”, diz ela. “Se quiseres vai a pé que depois encontramo-nos.”. “Não eu vou contigo”. Odeia. Há um senhor mais velho já à espera, que depois, já dentro do elevador, demora horas, de rabo espetado, à procura do botão. Ele sente-se novíssimo porque indica o botão correcto ao senhor mais velho. À frente está uma menina pequenina, agarrada pela mãe. Dá um pontapé ao senhor do lado. A mãe diz “Oh Sara!”. A criança repete o chuto. ”. “Oh Sara, isso não se faz...” e comenta: ” Isto é tudo uma questão de método educativo!”. Saem do elevador às gargalhadas e ela nem teve tempo para imaginar como seria se ficassem trancados todos lá dentro ou se houvesse um tremor de terra e o mundo desabasse e nunca mais de lá saíssem nem houvesse alguém que os salvasse…
11. Chegam a casa, almoçam e “vamos à montagem” diz ele. E geme. Muito. Tábuas todas iguais, parafusos esquisitíssimos, cartão e cartão e cartão. “Montamos tudo aqui em cima da bancada por causa das costas, vá,” diz ela. “F***-se eu sei lá fazer esta m***a! Para que é que vamos ao IKEA e não pedimos a alguém que nos faça?”. “Vá, isto está tudo explicado. Ora vê…”. “Não é assim, é para baixo”. “Porra agora segura aí, f***se.Isto não encaixa”. E de cada volta num parafuso há qualquer coisa de erótico no gemido que ela lhe ouve… “Eu não disse??? Eu não disse?? Falta uma peça!!!!!”. “Não. Aqui nunca falta nada. Está aqui, vês?”.
12. “Pronto!! Boa!!.... conseguiste e ficou linda!”.
samedi 25 janvier 2014
a pedido...
E lá fui eu.
Foi numa tarde tardia e cinzenta.
Entro na estradinha que nos leva à
rua principal e termina no largo da capela. Ali estão eles. Talvez os mesmos
ainda mais devastados pela desesperança ou porventura outros que assim ficaram
pela osmose de álcool ou infelicidade permanente. Dois aqui, um depois, outra mais à frente. As
mesmas imagens. Caras miseráveis, cabelos desalinhados, peles inchadas,
pescoços descarnados, como se de um filme se tratasse. Uma cidadela medieval. Onde
os pedintes andrajosos, encostados às paredes que escondem pátios putrefactos, lançam olhares quase vazios. Nas pupilas desmesuradas e frias, percebo um
lampejo de pensamento: “eu sei que um dia eu poderia ter um cavalo assim e voar daqui em
quatro pneus rápidos”. Mas nem um músculo se nota a desencostá-los, num impulso
de “é hoje”.
Esqueço o arrepio e volto à
tentativa de fortuna na papelaria. Salto a berma do passeio em relance, com
medo do que lá encontraria.
As meninas estão geladas, sem
penachos nem sinais exteriores de festa. Narizes encarnados, camisolonas grossas
e desenxabidas, bocas tristes. “Está um frio que sobe até aos joelhos”, digo
eu. “Está quase a acabar o Inverno, retorna a mais novinha que percebe um
lampejo de minha dúvida e continua:.”temos de acreditar ou não chegaremos ao fim”.
Saio e vou subindo a rua. E lá
está a luz acolhedora da pequena loja de montra apetitosa.
Entro e, à primeira, julgo que o
sono se eternizou. Mas a senhora lá estava. De pé. Mais ou menos escondida no
mar de toalhas, napperons e casaquinhos de bebé. E botinhas. E bonecos de
feltro. Não me parece tão velha assim, embora a cara seja bem marcada e dura e
a atitude impaciente me faça perguntar para dentro porque é que tem uma loja
aberta se não lhe apetece que entre gente. Será que leu o que escrevi?
É pequenina. Mais do que eu. E
por isso a tal barriga que, confirmo, é como a dos homens. Talvez porque foi a melhor
forma de se instalar no tão pouco espaço entre o peito – não muito grande se me
lembro - e o baixo-ventre.
Toalhas de mesa lindas, argolas de guardanapos,
cinzeiros (lindos) pintados à moda dos minhotos lenços de namorados, e no lado
que lhes era oposto um espaço (ainda) de Natal. O sono não foi eterno mas,
acredito, constante, de tal forma que ainda não deu tempo para desarranjar “as
festas”. Presépios minúsculos, velinhas
decoradas, anjos e grinaldas.
E num pequeno espaço de parede livre de
estantes, um sem fim de quadrinhos que
não me lembrava de ter visto há um ano.
Inexplicavelmente o impulso de
sacar alguma coisa permaneceu. Talvez porque aquilo é tão mágico que apetece
meter no bolso um bocadinho e deixá-lo por uns dias em exposição num canto da
cómoda aqui do quarto. Não me acontecia isto quando era pequenina e entrava
numa loja encantada? É isso. Encantamento.
Não comprei nem uma coisa, e
imagino, a senhora redondamente
barriguda terá ficado ainda mais impaciente. Talvez amanhã lá vá ao cinzeirinho-minhoto e o
ponha, mesmo, no canto da cómoda do quarto. Ou aqui na mesa do computador para
me dar cor às noites e um sorriso pela mensagem sempre terna e, só aparentemente, ingénua.
Talvez consiga mesmo trazer uma nica da magia. Mas duvido. Até desconfio que comprar,
de lá, alguma coisa, significa fazer um buraco impreenchível naquele continuum caótico.
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