Há uma solidão serena, nos pescadores, que eu invejo...
mercredi 7 mai 2014
samedi 25 janvier 2014
a pedido...
E lá fui eu.
Foi numa tarde tardia e cinzenta.
Entro na estradinha que nos leva à
rua principal e termina no largo da capela. Ali estão eles. Talvez os mesmos
ainda mais devastados pela desesperança ou porventura outros que assim ficaram
pela osmose de álcool ou infelicidade permanente. Dois aqui, um depois, outra mais à frente. As
mesmas imagens. Caras miseráveis, cabelos desalinhados, peles inchadas,
pescoços descarnados, como se de um filme se tratasse. Uma cidadela medieval. Onde
os pedintes andrajosos, encostados às paredes que escondem pátios putrefactos, lançam olhares quase vazios. Nas pupilas desmesuradas e frias, percebo um
lampejo de pensamento: “eu sei que um dia eu poderia ter um cavalo assim e voar daqui em
quatro pneus rápidos”. Mas nem um músculo se nota a desencostá-los, num impulso
de “é hoje”.
Esqueço o arrepio e volto à
tentativa de fortuna na papelaria. Salto a berma do passeio em relance, com
medo do que lá encontraria.
As meninas estão geladas, sem
penachos nem sinais exteriores de festa. Narizes encarnados, camisolonas grossas
e desenxabidas, bocas tristes. “Está um frio que sobe até aos joelhos”, digo
eu. “Está quase a acabar o Inverno, retorna a mais novinha que percebe um
lampejo de minha dúvida e continua:.”temos de acreditar ou não chegaremos ao fim”.
Saio e vou subindo a rua. E lá
está a luz acolhedora da pequena loja de montra apetitosa.
Entro e, à primeira, julgo que o
sono se eternizou. Mas a senhora lá estava. De pé. Mais ou menos escondida no
mar de toalhas, napperons e casaquinhos de bebé. E botinhas. E bonecos de
feltro. Não me parece tão velha assim, embora a cara seja bem marcada e dura e
a atitude impaciente me faça perguntar para dentro porque é que tem uma loja
aberta se não lhe apetece que entre gente. Será que leu o que escrevi?
É pequenina. Mais do que eu. E
por isso a tal barriga que, confirmo, é como a dos homens. Talvez porque foi a melhor
forma de se instalar no tão pouco espaço entre o peito – não muito grande se me
lembro - e o baixo-ventre.
Toalhas de mesa lindas, argolas de guardanapos,
cinzeiros (lindos) pintados à moda dos minhotos lenços de namorados, e no lado
que lhes era oposto um espaço (ainda) de Natal. O sono não foi eterno mas,
acredito, constante, de tal forma que ainda não deu tempo para desarranjar “as
festas”. Presépios minúsculos, velinhas
decoradas, anjos e grinaldas.
E num pequeno espaço de parede livre de
estantes, um sem fim de quadrinhos que
não me lembrava de ter visto há um ano.
Inexplicavelmente o impulso de
sacar alguma coisa permaneceu. Talvez porque aquilo é tão mágico que apetece
meter no bolso um bocadinho e deixá-lo por uns dias em exposição num canto da
cómoda aqui do quarto. Não me acontecia isto quando era pequenina e entrava
numa loja encantada? É isso. Encantamento.
Não comprei nem uma coisa, e
imagino, a senhora redondamente
barriguda terá ficado ainda mais impaciente. Talvez amanhã lá vá ao cinzeirinho-minhoto e o
ponha, mesmo, no canto da cómoda do quarto. Ou aqui na mesa do computador para
me dar cor às noites e um sorriso pela mensagem sempre terna e, só aparentemente, ingénua.
Talvez consiga mesmo trazer uma nica da magia. Mas duvido. Até desconfio que comprar,
de lá, alguma coisa, significa fazer um buraco impreenchível naquele continuum caótico.
dimanche 30 décembre 2012
Fui, ontem, ao centro de compras aqui da zona, à procura de uma agulha para coser lã (sim! estou em acabamentos de um casaco que fiz para o meu novo neto; tarefa gloriosa que me enche de auto-estima, considerando a dificuldade em acabar alguma coisa que seja preciso desmanchar e recomeçar, fenómeno que inevitavelmente acontece em todos os trabalhos de minhas mãos pois nunca cumpro a disciplina necessária.).
Vila medieval de altos muros a esconderem, na maior parte das casas, destroços da vida, daqueles que se não deitam fora porque talvez sejam necessários e ali ficam, em pátios abarrotados a apodrecerem de ferrugem e mofo. Ruelas sem passeios. Claustrofóbicas. Terra de cães esfomeados, bêbados cor de ameixa madura, ‘dealers’ de olhar afiado pela desumanidade e mulheres emagrecidas por maus tratos e falta de horizontes.
Entrei na papelaria para tentar a fortuna do euromilhões. As meninas, em modo fim-de-ano, com orelhas de coelhinha Playboy e colares de havaiana, receberam-me esfuziantes e barulhentas. Mesmo ao lado - porta com porta - da taberna onde um grupo, manhã, tarde e noite, solta bafos quentes e baba teores alcoólicos altíssimos, ao som das vozes das jovens e rotundas vizinhas, as quais servirão de inspiração aos pensamentos difusos e avinhados que acompanham os olhares de machos cambaleantes às escanzeladas na rua, prematuramente velhas, com ninhos incolores no lugar de cabelos, gastas por eles, ou por amigos deles. Em frente, naquela zona neutra entre passeio e alcatrão, onde quase ninguém pisa e que serve de esgoto a dejectos incivis, vi umas quantas escarradelas ensanguentadas. Quis acreditar que terão sido consequência de tratamento invasivo do dentista espanhol que exerce no prédio em frente…
E em vez de entrar na grande retrosaria, subi à lojinha da montra apetitosa, com bordados em cruz e napperons a preceito. À frente da capelinha restaurada e acolhedora. Entrei. Na loja. Um sem fim de tudo. Anjinhos, toalhas, velas e toalhões, fitas, linha, lãs e almofadas, sacos de cheiro e galos de Barcelos… Ninguém à vista.
Esperei um bocadinho, cruzando os braços, não tanto para não obedecer àquela vozinha interior, malévola e de maus costumes, que me sussurrava a hipótese, rara na vida, de sacar o que quisesse e saísse sem pagar mas antes para evitar que, quando entrasse alguém e me apanhasse sozinha naquele cafarnaum, não ouvisse também, o sussurro do anjo mau, e julgasse que eu lhe teria obedecido.
E esperei. Tinha visto, num canto, quase afogada em tecidos, uma portinha. Ousadamente, espreitei. Lá estava a senhora, dona, da loja. Sentada, com um saco de plástico em cima de uma barriga imensa que mais parecia redonda como a dos homens do que larga como a das mulheres. A cabeça acomodada na gordura dos ombros, dormindo ferrada.
Dei meia volta. Pé ante pé, tal como as tias que chegavam tarde à missa das sete da Sagrada Família, e caminhavam convictas mas envergonhadas, em biquinhos dos pés para não ressoarem os saltos de sapato novo no chão de pedra. Não queriam acordar os olhares. Eu não quis acordar a senhora.
Hoje à noite, numa insónia momentânea, talvez pela luz branca da lua quase cheia, perguntei-me se ela não estaria morta. Estou arrependida de não ter lá ido, pela manhã, comprovar. Preferi encher o peito de mar bravo, mergulhar os olhos num céu azul pincelado de nuvens poucas e brancas, e ser despida de camisolas por um sol que mais parecia julgar-se no verão.
Vou amanhã ver se ainda vive. E se estará acordada…
Vila medieval de altos muros a esconderem, na maior parte das casas, destroços da vida, daqueles que se não deitam fora porque talvez sejam necessários e ali ficam, em pátios abarrotados a apodrecerem de ferrugem e mofo. Ruelas sem passeios. Claustrofóbicas. Terra de cães esfomeados, bêbados cor de ameixa madura, ‘dealers’ de olhar afiado pela desumanidade e mulheres emagrecidas por maus tratos e falta de horizontes.
Entrei na papelaria para tentar a fortuna do euromilhões. As meninas, em modo fim-de-ano, com orelhas de coelhinha Playboy e colares de havaiana, receberam-me esfuziantes e barulhentas. Mesmo ao lado - porta com porta - da taberna onde um grupo, manhã, tarde e noite, solta bafos quentes e baba teores alcoólicos altíssimos, ao som das vozes das jovens e rotundas vizinhas, as quais servirão de inspiração aos pensamentos difusos e avinhados que acompanham os olhares de machos cambaleantes às escanzeladas na rua, prematuramente velhas, com ninhos incolores no lugar de cabelos, gastas por eles, ou por amigos deles. Em frente, naquela zona neutra entre passeio e alcatrão, onde quase ninguém pisa e que serve de esgoto a dejectos incivis, vi umas quantas escarradelas ensanguentadas. Quis acreditar que terão sido consequência de tratamento invasivo do dentista espanhol que exerce no prédio em frente…
E em vez de entrar na grande retrosaria, subi à lojinha da montra apetitosa, com bordados em cruz e napperons a preceito. À frente da capelinha restaurada e acolhedora. Entrei. Na loja. Um sem fim de tudo. Anjinhos, toalhas, velas e toalhões, fitas, linha, lãs e almofadas, sacos de cheiro e galos de Barcelos… Ninguém à vista.
Esperei um bocadinho, cruzando os braços, não tanto para não obedecer àquela vozinha interior, malévola e de maus costumes, que me sussurrava a hipótese, rara na vida, de sacar o que quisesse e saísse sem pagar mas antes para evitar que, quando entrasse alguém e me apanhasse sozinha naquele cafarnaum, não ouvisse também, o sussurro do anjo mau, e julgasse que eu lhe teria obedecido.
E esperei. Tinha visto, num canto, quase afogada em tecidos, uma portinha. Ousadamente, espreitei. Lá estava a senhora, dona, da loja. Sentada, com um saco de plástico em cima de uma barriga imensa que mais parecia redonda como a dos homens do que larga como a das mulheres. A cabeça acomodada na gordura dos ombros, dormindo ferrada.
Dei meia volta. Pé ante pé, tal como as tias que chegavam tarde à missa das sete da Sagrada Família, e caminhavam convictas mas envergonhadas, em biquinhos dos pés para não ressoarem os saltos de sapato novo no chão de pedra. Não queriam acordar os olhares. Eu não quis acordar a senhora.
Hoje à noite, numa insónia momentânea, talvez pela luz branca da lua quase cheia, perguntei-me se ela não estaria morta. Estou arrependida de não ter lá ido, pela manhã, comprovar. Preferi encher o peito de mar bravo, mergulhar os olhos num céu azul pincelado de nuvens poucas e brancas, e ser despida de camisolas por um sol que mais parecia julgar-se no verão.
Vou amanhã ver se ainda vive. E se estará acordada…
vendredi 9 novembre 2012
Há uns anos, quando era furiosa seguidora de blogs, adorava o "Berra-Boi". Foi o percursor das fotografias de rua. Lindas e 'bem apanhadas'. Havia inúmeras de parzinhos. De várias idades. Alguns abraçados outros de mão dada. Em todas as de 'mão-na-mão' era a do homem que estava 'à frente'. Ou seja, era o homem quem pegava na mão da mulher, ficando esta numa posição, simbólica, de passividade, parecendo que se deixava levar ou que ele a puxava e a guiava..ou comandava, claro. Combinámos, eu e o 'dono' do blog, que lhe pagaria um almoço quando publicasse uma fotografia 'mão-na-mão' em que a da mulher estivesse na frente, em comando... Nunca publicou embora me tenha dito que tinha visto, no Chiado, uma dessas situações, mas que não trazia a máquina.
Lembrei-me dele quando vi esta publicada no Figaro....
Lembrei-me dele quando vi esta publicada no Figaro....
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