07:00 am.
Abri a janela estremunhada. Em vez de ar fresco, o novo dia deu-me um soco de calor.
Despachei-me.
Praia. Mar azuuuuuuul. Na areia, escassas marcas de pés e muitas pegadas de gaivota. Certinhas, em caminho bem definido. Elas sabem por e para onde andam. Não voltam atrás nem fazem grandes desvios.
Andar, andar...Maré baixa, ondinhas rasteiras, água transparente. Lá ao fundo, nas rochas, ainda é de noite, gelada e soturna. Nem entro. Dou meia volta e continuo a caminho da piscina.
Chegaram os meninos da colónia. Muitos, rasteiros como as ondas, onde se estiram em gritinhos de entusiasmo pelo arrepio do frio. Nunca fui menina, assim, de estar feliz longe da família.
Pelo caminho, milhares de conchas de mexilhão. Algumas ainda com limos colados. E, hoje, imensas carapaças de caranguejos. Só a capa. As pernas desapareceram. Apanhei algumas. Eram moles e transparentes mas com uma hora de sol, encostadas ao pau do toldo, tornaram-se cor de camarão. As cascas também apanham escaldões, mesmo depois de mortas e desmembradas...
E não percebo porque é que nesta praia não existem as conchas que se apanham noutras. Talvez o mar, de tão forte, as desfaça antes que cheguem à areia.
Tentei mergulhar. Gelado de quebrar a respiração, só entrei até meio. Ou melhor, molhei-me em semicúpio, na água que subia fortemente. E no entanto duas raparigas conversavam flutuando, paulatinamente, lá dentro, na zona logo após a rebentação. Inveja. Por não terem frio e por terem força para se manterem em constante luta contra as ondas que, teimosamente, as empurravam para a espuma cheia de areia do quebra coco.
Fui para o toldo.
Estiquei a toalha, oblíqua, para apanhar o sol por inteiro. Algum tempo de bem estar. Pertinho dois meninos iniciaram o jogo da bola. Imaginei-a voando directa ao meu nariz. Levantei-me. Tentei ler. Mas quem consegue ler numa manhã radiosa de azul e sol? Os meninos ronaldinhos vieram com os avós. Aliás, estamos na era dos avós, que aterram na PG rodeados de netos e netas. Já não há mães. Minto. Havia uma com um bebé, mas ligeiramente infeliz, acho.
Ao longe vejo a C. que, como eu gosta de praia sozinha. Sessentona ainda de biquini. Não quero pensar que uma barriga daquelas, e para mais a ser untada de creme, não devia ser mostrada. Mas penso.
O calor começa a ser intolerável e no mar já ninguém está. Porque cresceu.
Arrebanho as coisas, atravesso o deserto escaldante enfiando os pés por baixo da areia onde o sol entra mais devagarinho.
Subo as escadas, percorro meio metro de passeio e ultrapassa-me um surfista a pingar que, mesmo ao meu lado, resfolega e se sacode como um cachorro. Respinga-me de gotas frescas e saudáveis. E deixa um rasto de perfume. Nunca tinha cheirado um surfista perfumado.
