mardi 17 juillet 2012

07:00 am.
Abri a janela estremunhada. Em vez de ar fresco, o novo dia deu-me um soco de calor.
Despachei-me.
Praia. Mar azuuuuuuul.  Na areia, escassas marcas de pés e muitas pegadas de gaivota. Certinhas, em caminho bem definido. Elas sabem por e para onde andam. Não voltam atrás nem fazem grandes desvios. 
Andar, andar...Maré baixa, ondinhas rasteiras, água transparente. Lá ao fundo, nas rochas, ainda é de noite, gelada e soturna. Nem entro. Dou meia volta e continuo a caminho da piscina. 
Chegaram os meninos da colónia. Muitos, rasteiros como as ondas, onde se estiram em gritinhos de entusiasmo pelo arrepio do frio. Nunca fui menina, assim, de estar feliz longe da família.
Pelo caminho, milhares de conchas de mexilhão. Algumas ainda com limos colados. E, hoje, imensas carapaças de caranguejos. Só a capa. As pernas desapareceram. Apanhei algumas. Eram moles e transparentes  mas com uma hora de sol, encostadas ao pau do toldo, tornaram-se cor de camarão. As cascas também apanham escaldões, mesmo depois de mortas e desmembradas... 
E não percebo porque é que nesta praia não existem as conchas que se apanham noutras. Talvez o mar, de tão forte, as desfaça antes que cheguem à areia. 
Tentei mergulhar. Gelado de quebrar a respiração, só entrei até meio. Ou melhor, molhei-me em semicúpio, na água que subia fortemente.  E no entanto duas raparigas conversavam flutuando, paulatinamente, lá dentro, na zona logo após a rebentação. Inveja. Por não terem frio e por terem força para se manterem em constante luta contra as ondas que, teimosamente, as empurravam para a espuma cheia de areia do quebra coco.
Fui para o toldo.
Estiquei a toalha, oblíqua, para apanhar o sol por inteiro. Algum tempo de bem estar.  Pertinho dois meninos iniciaram o jogo da bola. Imaginei-a voando directa ao meu nariz. Levantei-me. Tentei ler. Mas quem consegue ler numa manhã radiosa de azul e sol? Os meninos ronaldinhos vieram com os avós. Aliás, estamos na era dos avós, que aterram na PG rodeados de netos e netas. Já não há mães. Minto. Havia uma com um bebé, mas ligeiramente infeliz, acho.
Ao longe vejo a C. que, como eu gosta de praia sozinha. Sessentona ainda de biquini. Não quero pensar que uma barriga daquelas, e para mais a ser untada de creme, não devia ser mostrada. Mas penso.
O calor começa a ser intolerável e no mar já ninguém está. Porque cresceu.
Arrebanho as coisas, atravesso o deserto escaldante enfiando os pés por baixo da areia onde o sol entra mais devagarinho.
Subo as escadas, percorro meio metro de passeio e ultrapassa-me um surfista a pingar que, mesmo ao meu lado, resfolega e se sacode como um cachorro. Respinga-me de gotas frescas e saudáveis. E deixa um rasto de perfume. Nunca tinha cheirado um surfista perfumado.

lundi 2 juillet 2012


'One of these mornings
You're going to rise up singing
Then you'll spread your wings
And you'll take to the sky'
(Gershwin)

dimanche 1 juillet 2012

Primeiro de Julho, solarengo e de nortada.
Acabei de preparar, para o Verão,  esta casa que apesar das paredes grossas me não protege do cortante  sibilar do vento frio do norte, nem da neblina que apaga os pinheiros e entra sorrateira para dentro das roupas onde deixa, tal gato inteiro, o cheiro enjoativo.
Trinta e muitos anos de gestos iguais, nestes primeiros dias de 'silly season', pó agarrado às mãos, catarro alérgico na garganta,  olhares enviesados à serra que me não deixa ver o horizonte mas  se veste e reveste ao longo do dia. Varia acho que para me entreter.
O que mais quero, na verdade, é que o Verão se deixe de tonterias.

lundi 11 juin 2012



O povo saíu à rua no 10 de Junho para ver "os barcos". Eu também.
Hesitei na escolha do sítio porque quem me acompanhou está de muletas. Acabámos na Cruz Quebrada. No início do novo caminho que segue a linha do combóio, junto ao rio.
Chegámos cedo. Estava um pescador, passavam ciclistas e corredores alagados em suor nojento....
Sentámo-nos em cadeirinhas de praia, abrimos o saco dos biscoitos, demos dois ou três goles de água e eu disse "Mas quem é que vai para a Caparica, quando há a Cruz Quebrada?".
Trauteei uma cantiga do tempo da minha avó "Adeus praia da cruz quebrada, Onde eu ia passear, Pé aqui, é ali, pé além, A atirar as pedrinhas p'ró mar..." e chegámos à conclusão que há tantas coisas agradáveis, perto, muito perto, que não aproveitamos.
Depois começou a encher. Até uma senhora de salto alto se aventurou nestas rochas instáveis, bem agarradinha ao seu par, tão solícito e atencioso que achei ser, certamente, passeio de domingo em "new date".
Pedi a máquina que estava a ser utilizada para imagens - lindas - dos inúmeros barcos que volteavam inquietos.
"Agora quero é uma do povo. Eu gosto é do povo!". Voilá. Para a posteridade.

dimanche 22 janvier 2012



Estou a ficar como as tias transmontanas que cada dia nos diziam de um novo morto. Ou morta.
Idade. A minha, igual à que era a delas quando eu me fascinava de as olhar.
O crescimento em África, inserida num grupo alargado de pais jovens, filhos muitos e poucos avós, fazia de mim, quando vinha às origens da família, uma parente atenta aos que cá viviam cinzentamente.
Os vestidos moles, os casaquinhos pelos ombros, os colares de pérolas, a contenção que, achava eu talvez, teria origem naquele esgar de bocas cerradas e circunflexas. E os coletes dos avôs, presos numa corrente mergulhada num micro-bolso, a navalha da barba ritmadamente afiada a cada dia, o cheiro ao sabão e os sapatos pretos, pesados e sempre brilhantes.
Mas eles não falavam tanto dos doentes, nem dos novos mortos. Só elas.
Estariam com certeza tão impressionadas quanto eu, agora, com o ritmo a que vejo 'caírem' pessoas que me não eram íntimas mas faziam parte do meu quotidiano. Alguns deles nem tinha ideia que lhes tinha tanta estima. É o caso do Sr. Manel que me serviu italianas desde há muitos anos, no café habitual. Era delicado, elegante, discreto. Levava as bandejas até à esplanada em passos e gestos de dança, esquivando-se levemente dos cotovelos da clientela, apinhada ao balcão, expectante de shots de cafeína.
Queixou-se algumas vezes, quase em surdina, de um braço. E de repente deixou de o mexer. É uma compressão na coluna, disseram-me quando perguntei por ele. Um tumor inoperável, soube hoje.
Laços que se quebram.

mardi 3 janvier 2012

Um frisson, sempre, estes primeiros dias do ano. A ligeira excitação da novidade e a pesada ansiedade da incertitude. Pragmaticamente vou-me segredando que isto é um bocadinho treta, estas coisas do começo de ano e tal, são datas impostas e nada muda.
Mas posso mudar eu, ainda.
Para já recuso-me solenemente a ouvir e ver noticias deprimentes. Eu sei que há crise e pessoas mal. Há algumas perto de mim. Ajudo estas e comprometo-me a continuar tão moderada como tenho sido até aqui, no que diz respeito a práticas de consumo. Tive muitos anos de crise particular. Sei o que é não poder comprar o Cerelac e/ou não poder pagar a gasolina. E não comprar bifes. Nem After Eights que há vinte anos pagavam taxas brutais de importação e eram hiper-caros...
Ficar-me-ei só por aquele acessório que não pode ser evitado.

vendredi 30 décembre 2011

Regressei aqui. Mas tenho sempre pena de não conseguir passar lá um dia inteiro.

jeudi 29 décembre 2011

Fui ao Cascais Shopping buscar uma coisa que me acabara.
Tive de esperar para arranjar lugar. Parques cheios. E lá dentro uma chusma com sacos repletos e em filas intermináveis.
Eu não percebo.

mercredi 28 décembre 2011

( fotografia daqui)




Habituada à pouca expressividade dos asiáticos - nomeadamente dos japoneses que há bem pouco tempo vimos numa catástrofe inimaginável - impressiona-me esta demonstração colectiva de desgosto dos norte-coreanos.

E por estes excessos recuei uns quantos muitos anos. Aos meus catorze. Estava no liceu, em Luanda, quando morreu, de parto, uma das contínuas do andar onde se encontrava a sala que era a minha. Terá sido na mesma época em que a minha mãe se encontrava grávida do meu irmão mais novo o que agravou seriamente a minha perspectiva. Para mais eu, que tivera uma doentia relação com a morte desde que percebera a sua falta de jeito no que diz respeito à sincronia. Em minha casa - de médicos vários - sempre se falou de morte mas eu achava que era um fenómeno colectivo. Ou seja, pensava que quando um de nós morresse, morríamos todos. Um dia o meu pai explicou-me que não. Cada um morria por si, salvo algumas excepções . Desde aí e ao longo de anos e anos esgueirava-me para o seu quarto, durante a noite, para me certificar que ainda não era órfã.

Houve, então, uma professora, de Religião e Moral, que decidiu arranchar umas quantas meninas para homenagearem a senhora empregada morta. Levou-nos até ao musseque onde era a casa da sua família. Na sala de uma casa escura se encontrava a Ana, em cima de uma mesa, dentro do caixão, rodeada de mulheres que gritavam bem alto um pranto imparável e ensurdecedor. Gritavam e mexiam-se. Uma espécie de dança convulsiva. Acho que encontrei, nesses gritos, a expressão sonora de toda a ansiedade que eu experimentara desde a revelação paterna. Foi muito mau.

Mas aquelas pretas sentiam. E estes coreanos que se atiram ao chão nem ritmo têm.

lundi 26 décembre 2011

Natal verdadeiramente doirado

Estou nesta ponta da Europa há muitos mais anos do que os que vivi na África onde nasci.


E no entanto, ainda tudo me é estranho. Como novo. Por exemplo, fico deslumbrada com as papoilas, sempre, a cada Primavera. Assim como me choca o frio. Um ultraje. Inaceitável a existência da dor de frio, a necessidade de vestir camadas de roupa, e de as despir, à noite, por ordem contrária


É uma enormíssima provação a passagem do Inverno. Anseio chegar a Março. Tanto que até tenho medo de morrer antes....


Mas este ano estou ligeiramente pacificada. Talvez pela dádiva destes dias consecutivos de sol quentinho e luz doirada e céu infinito em que só de se respirar se dá graças pela vida.


Acho que é o primeiro Natal tão longamente luminoso desde que mudei de hemisfério.

dimanche 25 décembre 2011

Voltei a fazer sonhos ao fim de um ano.
Alguns, do Natal passado, concretizaram-se.

jeudi 23 décembre 2010

Fiz sessenta sonhos.
Bom Natal.

mardi 7 décembre 2010

Três quilómetros, de pinheiros e eucaliptos, disto eu, hoje, do mar. Acima deles, encolhida num pequeno outeiro, o vento desordena-me.
Nem uma só casa entre mim e as ondas que oiço bater na arriba, em estrondos de terra a tremer.
Hoje é Atlântico por inteiro, outra vez.

samedi 4 décembre 2010

Tomar banho num espaço que ronda os 0º é tortura...para não referir a necessidade de tirar roupa para cumprir "necessidades". Maldigo sempre o facto de não ser homem...tal como já o fazia quando era miúda e queria ter a liberdade deles.
----------------------------
Os controladores espanhóis são umas bestas. Herdeiros dos anos 80 e da riqueza que seus antecessores construíram, vão ajudar a estragá-la.
A herança do futuro rei é muito mais pesada que a que Franco deixou a seu pai.
----------------------------
Já gastei 50 kgs de lenha, hoje.
----------------------------
Sei pouco sobre os segredos desvendados pelo tal sueco da wikileaks. Mas não percebo porque todo o media se escandaliza. Não sabemos todos o que são os mentideros da diplomacia?

mercredi 1 décembre 2010

sedas e cetins matinais

Não há alguém pela TVI que ensine às meninas locutoras a etiqueta das toilettes?
Zappando ao pequeno almoço, ao sintonizar a 4, parecia-me estar em jantar de (quase ) gala.

dimanche 28 novembre 2010

v(s)ida cruel

Não sou uma telespectadora disciplinada. Vejo pouco e, habitualmente, o que apanho em zapping. Mas ao domingo na 2 tento sentar-me às 9 da noite para assistir aos DOCs. Tenho apanhado bons documentários.
Hoje foi sobre Rock Hudson. Andei para trás vinte e tal anos. Tinha-me esquecido do choque que foi ver as fotografias dele no seu último ano de vida. Já não me lembrava do papel, corajoso, que teve na divulgação da doença, assim como o fantástico desempenho de Elizabeth Taylor que se entregou aguerridamente à chamada de atenção, da sociedade civil, para a necessidade de se patrocinarem pesquisas que assegurassem rapidamente o tratamento dos doentes. Julgo que os miúdos de hoje - e talvez por isso se esteja a assistir a um aumento de casos nos homossexuais - não têm a noção da decadência acelerada e aterradora que o vírus provoca. De como, à época, a decrepitude física tinha laivos de "castigo dos deuses" para os que embarcavam em comportamentos moralmente condenáveis.
Terá sido a partir daquele início da década de 80 que as cabeças começaram a mudar quanto à forma como se olhava para os comportamentos homossexuais. Julgo, mesmo, que a aceitação dos gay, a ênfase na luta pelos seus direitos enquanto "comunidade" minoritária, se iniciou com a batalha de E. Taylor contra a discriminação dos seropositivos. Cruelmente diria mesmo que o HIV deu uma forte ajuda aos homossexuais "ocidentais".

mercredi 24 novembre 2010

Novembro

Completaram-se agora em Novembro muitos e tantos anos de chegada a Lisboa, vinda de África.
Tinha vinte. Casada há pouco mais de um. Orgulhosamente grávida do primeiro filho.

Choveu todo o mês. Assim como ontem. Céu escuro, pingos a gotejar, este frio que de primeiro parece maior. A falta do calor tépido do hemisfério sul. A dolorosa minha ausência no quotidiano da família que me fez crescer e que eu ajudei a formar como irmã mais velha de seis.

Eu, aqui em Lisboa, num sétimo andar da Infante Santo, irremediavelmente submergida numa nova família cujos hábitos, rituais, códigos, cheiros me eram desconhecidos. Numa cidade que, se não estranha, me não era íntima. Conhecia-a das férias graciosas, de visitas periódicas, quase sempre no Verão. Noutros contextos. Com a minha gente por perto e amigos só meus.

Desfazia-me em choro quando via imagens de Luanda. Sabia que eles, os amigos, os irmãos, os pais andavam naquela marginal, iam aquela ilha, mergulhavam naquele mar.

Depois passou-me. Porque uma nova vida minha começou a sério. Mas cada Novembro sinto-o como se fosse aquele primeiro.

dimanche 21 novembre 2010

fundo azul decadente

Vi pouco da Cimeira. Mas não consegui tirar os olhos daquela tela gigante azul, que aparecia em fundo, toda enrugada. Pressuponho que fosse o cenário de todas as transmissões para o mundo. Pena. Haveria, certamente, forma de a esticar...

mercredi 20 octobre 2010

fidelidade

Ontem fui comemorar cinquenta anos de casamento de uns amigos de meus pais.

Na homilia da missa de renovação de votos - acho que é mesmo renovação...aos cinquenta anos há decisões novas e difíceis...- o padre referiu a importância da fidelidade para a continuidade da vida a dois. Mas sublinhou que mais importante do que a fidelidade ao cônjuge é a fidelidade ao projecto, à família, à rede de amigos comuns.

E lá estavam todos. Filhos, netos, irmãos, sobrinhos, afilhados, e amigos amigos amigos. Muitos. Muitos amigos setentões. Que eu conheço desde que nasci. Fui sempre uma espectadora atenta. E uma ouvinte discreta. Acho que lhes sei, de cada um, a forma como pestanejam, como riem, como se resguardam quando o assunto de alguma conversa não é conveniente. As vaidades das senhoras - e é espantoso como só agora descobri sensualidade nalgumas...-. A sempre presente confrontação masculina no que diz respeito à performance profissional. Dos próprios e, agora, de seus filhos. Os olhares de cumplicidade entre uns e outros, umas e outras, uns e outras. Mantêm-se. Assim como se mantem a crispação provocada pela presença ou pela frase ou pela atitude de alguns, noutros.

E em todos eles tentei perceber qual o padrão comum que lhes permitiu sobreviver, mentalmente saudáveis, apesar das tragédias ocorridas durante o percurso de vida. Talvez a Fé. Ou o optimismo. Ou o amor próprio. Ou a dignidade. Ou a fidelidade, sim, talvez.

mercredi 15 septembre 2010

A maioria das pessoas que compõem o grupo dos meus amigos tem entre 52 e 62 anos. Começamos a morrer.
No espaço de dois anos já partiram quatro. Rapidamente.

O que esteve por cá mais tempo depois de se saber doente, durou treze meses. Porque foi mantido em vida pelos médicos assistentes já que ia ser pai de uma menina linda que ainda viu nascer e embalou e a sentiu aconchegada, a seu lado, em sua cama, nos últimos dias de força.

Anteontem partiu mais um, subitamente.
Homem feio-cheio-de-charme, sensual, gordo, inteligente, cultissimo, sensivel e absolutamente de esquerda. Acho que era daqueles que são de esquerda por serem bons.
Escarafunchava cada momento da vida. Não se ficava pela espuma. E gozava intensamente o êxtase da profundidade.

Cada elemento deste clube de amigos mortos deixou, em mim, bocadinhos deles. Os que sempre conheci ajudaram à construção da minha "eu"; os que só encontrei depois de me reconhecer, fazem de mim uma eternamente grata pela vida me ter dado oportunidade de os encontrar. De os ter. De me rir com eles. De lhes ouvir as histórias de vida passada antes de mim. Histórias que me ajudaram a entender cada um deles. De ter podido perceber a sua sabedoria, os calos que a vida lhes fez, os trejeitos e os trajectos de sobrevivência. De os descobrir maravilhando-me com o que revelavam.

Morreste-te meu amigo mas não morreste em mim. Queria agradecer-te o facto de me teres escolhido para tua amiga. Mas a amizade não se agradece. Constrói-se, mantém-se. Sentimo-la em permanente ternura. Foi muito bem ter-te conhecido. É muito bom teres-me acrescentado um pedacinho de ti. Para sempre.