Estou a ficar como as tias transmontanas que cada dia nos diziam de um novo morto. Ou morta.
Idade. A minha, igual à que era a delas quando eu me fascinava de as olhar.
O crescimento em África, inserida num grupo alargado de pais jovens, filhos muitos e poucos avós, fazia de mim, quando vinha às origens da família, uma parente atenta aos que cá viviam cinzentamente.
O crescimento em África, inserida num grupo alargado de pais jovens, filhos muitos e poucos avós, fazia de mim, quando vinha às origens da família, uma parente atenta aos que cá viviam cinzentamente.
Os vestidos moles, os casaquinhos pelos ombros, os colares de pérolas, a contenção que, achava eu talvez, teria origem naquele esgar de bocas cerradas e circunflexas. E os coletes dos avôs, presos numa corrente mergulhada num micro-bolso, a navalha da barba ritmadamente afiada a cada dia, o cheiro ao sabão e os sapatos pretos, pesados e sempre brilhantes.
Mas eles não falavam tanto dos doentes, nem dos novos mortos. Só elas.
Estariam com certeza tão impressionadas quanto eu, agora, com o ritmo a que vejo 'caírem' pessoas que me não eram íntimas mas faziam parte do meu quotidiano. Alguns deles nem tinha ideia que lhes tinha tanta estima. É o caso do Sr. Manel que me serviu italianas desde há muitos anos, no café habitual. Era delicado, elegante, discreto. Levava as bandejas até à esplanada em passos e gestos de dança, esquivando-se levemente dos cotovelos da clientela, apinhada ao balcão, expectante de shots de cafeína.
Queixou-se algumas vezes, quase em surdina, de um braço. E de repente deixou de o mexer. É uma compressão na coluna, disseram-me quando perguntei por ele. Um tumor inoperável, soube hoje.
Laços que se quebram.
Mas eles não falavam tanto dos doentes, nem dos novos mortos. Só elas.
Estariam com certeza tão impressionadas quanto eu, agora, com o ritmo a que vejo 'caírem' pessoas que me não eram íntimas mas faziam parte do meu quotidiano. Alguns deles nem tinha ideia que lhes tinha tanta estima. É o caso do Sr. Manel que me serviu italianas desde há muitos anos, no café habitual. Era delicado, elegante, discreto. Levava as bandejas até à esplanada em passos e gestos de dança, esquivando-se levemente dos cotovelos da clientela, apinhada ao balcão, expectante de shots de cafeína.
Queixou-se algumas vezes, quase em surdina, de um braço. E de repente deixou de o mexer. É uma compressão na coluna, disseram-me quando perguntei por ele. Um tumor inoperável, soube hoje.
Laços que se quebram.