
( fotografia
daqui)
Habituada à pouca expressividade dos asiáticos - nomeadamente dos japoneses que há bem pouco tempo vimos numa catástrofe inimaginável - impressiona-me esta demonstração colectiva de desgosto dos norte-coreanos.
E por estes excessos recuei uns quantos muitos anos. Aos meus catorze. Estava no liceu, em Luanda, quando morreu, de parto, uma das contínuas do andar onde se encontrava a sala que era a minha. Terá sido na mesma época em que a minha mãe se encontrava grávida do meu irmão mais novo o que agravou seriamente a minha perspectiva. Para mais eu, que tivera uma doentia relação com a morte desde que percebera a sua falta de jeito no que diz respeito à sincronia. Em minha casa - de médicos vários - sempre se falou de morte mas eu achava que era um fenómeno colectivo. Ou seja, pensava que quando um de nós morresse, morríamos todos. Um dia o meu pai explicou-me que não. Cada um morria por si, salvo algumas excepções . Desde aí e ao longo de anos e anos esgueirava-me para o seu quarto, durante a noite, para me certificar que ainda não era órfã.
Houve, então, uma professora, de Religião e Moral, que decidiu arranchar umas quantas meninas para homenagearem a senhora empregada morta. Levou-nos até ao musseque onde era a casa da sua família. Na sala de uma casa escura se encontrava a Ana, em cima de uma mesa, dentro do caixão, rodeada de mulheres que gritavam bem alto um pranto imparável e ensurdecedor. Gritavam e mexiam-se. Uma espécie de dança convulsiva. Acho que encontrei, nesses gritos, a expressão sonora de toda a ansiedade que eu experimentara desde a revelação paterna. Foi muito mau.
Mas aquelas pretas sentiam. E estes coreanos que se atiram ao chão nem ritmo têm.