Completaram-se agora em Novembro muitos e tantos anos de chegada a Lisboa, vinda de África.
Tinha vinte. Casada há pouco mais de um. Orgulhosamente grávida do primeiro filho.
Choveu
todo o mês. Assim como ontem. Céu escuro, pingos a gotejar, este frio que de primeiro parece maior. A falta do calor tépido do hemisfério sul. A
dolorosa minha ausência no quotidiano da família que me fez crescer e que eu ajudei a formar como irmã mais velha de seis.
Eu, aqui em Lisboa, num sétimo andar da Infante Santo,
irremediavelmente submergida numa nova família cujos hábitos, rituais, códigos, cheiros me eram desconhecidos. Numa cidade que, se não
estranha, me não era íntima. Conhecia-a das férias graciosas, de visitas periódicas, quase sempre no Verão. Noutros contextos. Com a minha gente por perto e amigos só meus.
Desfazia-me em choro quando via imagens de
Luanda. Sabia que eles, os amigos, os irmãos, os pais andavam naquela marginal, iam aquela ilha, mergulhavam naquele mar.
Depois passou-me.
Porque uma nova vida minha começou a sério. Mas cada Novembro sinto-o como se fosse aquele primeiro.