dimanche 25 octobre 2009

Acolhi na minha casa uma minha mãe em mergulho acelerado no buraco do alzheimer. Durante a semana temos apoios de terceiros. Aos fins de semana ficamos sozinhas, travando diálogos (im)possíveis, surreais alguns, ou soltando silêncios cansados.
Uma das distrações é levá-la de passeio à beira Tejo, na esplanada preferida beber um carioca de limão e manducar um queque tostadinho. Come-o daquele jeito que só os velhinhos têm, como se dele dependesse a sobrevivência por mais uns anos. As migalhas não aproveitadas e que descuidadamente caem ao chão debicam-nas os pardais.

Às vezes aventura-se um pombo no meio da pardalagem. Enxoto-o porque os não gosto.

A minha parte é beber a micro-italiana que as meninas já aprenderam a tirar, e observar o mundo. Hoje, na mesa da esquerda sentaram-se dois senhores, cinquentões talvez, espanhóis por todos os poros. As parceiras vieram pouco depois de tabuleiros com o desayuno. Achei graça às trocas entre dois elementos de um casal. Ela passou-lhe a chávena fumegante. Ele entregou-lhe a sanduíche para que a decascasse do celofane e imediatamente recebeu o pequeno frasco de compota que teimava em não abrir. Práticas porventura antigas que dispensam uma palavra.

Na mesa da direita estava outro casal. Português. Também foi ela quem trouxe o tabuleiro. Ele, de costas para mim, já mergulhara no DN. O pombo, desta vez, resolveu ir maçá-lo. Aterrou uma, aterrou duas, à terceira o senhor deu-lhe com o suplemento tão veementemente que lhe ficou a capa na mão tendo o resto voado directo à minha cara. Valeram-me os bons reflexos. Apanhei a revista desalinhada em voo. Levantou-se pálido. E balbuciou de dentro do pedaço de pão de leite mastigado:
"Desculpe! É que não posso com pombos". "

"Não faz mal. Eu também não."

samedi 24 octobre 2009

"o homem é uma mulher como as outras"

IL VIT DANS LA SALLE DE BAIN

numa manhã de Agosto azul...

...estava a ir para a Praia Grande com dois dos crianços da família, ouvindo e cantando em uníssono os "Cabeças no Ar" em hard rock-naquele entusiasmo característico de quem pressente um diazão de sol, mar e areia - quando ouvi um enorme estrondo. Vidros e um carro em voo, cuspindo mochilas e pranchas de bodyboard, quase tocou o nosso. De rodas para cima prosseguiu, raspando o chão, em rodopio. De uma das portas saíam duas pernas penduradas como se o seu dono estivesse em cestinho de feira popular. Rodou quatro vezes e parou.
O rapazinho das pernas no ar saíu, arrastando-se da fresta em que se transformou a porta e deitou-se ao lado. O outro que ia a guiar, todo torcido e ensanguentado. Sem se mexer.

Quando consegui mexer-me, eu própria, segui caminho a repetir sem parar "Nunca andem assim depressa meus queridos, nunca andem assim de carro tão depressa..nunca, nunca".

Fiquei convencida que o piloto tinha morrido. E que o outro, o das pernas, estaria em muito mau estado. Enganei-me.

Soube no mesmo dia que sobreviveram sem partir ossos, nem traumatismos graves.

Primeiro pensei num milagre. Depois no milagre que a idade faz e só mais tarde no investimento com a segurança como se pode ver neste vídeos postados no blog de Pitigrili.