dimanche 26 avril 2009

mulheres como não se querem

Havia períodos inseparáveis, daquele singelo afecto pela culpa, nas mulheres. Elas amam a culpa. Gostam de se sentirem humilhadas, de dar à luz um bastardo, de ficarem sempre com o pior bocado. O sacrifício amadurece-as, dá-lhes uma aptidão para a maternidade mais precoce. Por isso choram com humanas provas de amor, de justiça, de verdade. Quando as coisas correm bem, mostram-se cépticas, quando um homem as deseja , acham que as ilude; quando triunfam nos negócios, pensam que fracassaram com o amante, ou que os amigos são interesseiros, ou que a família não as compreende. Estão marcadas pelo desespero mais cínico porque prescinde da experiência e da razão.
Fanny Owen
Agustina Bessa-Luís

dimanche 19 avril 2009

meninas como se querem


Estavamos os cinco. Eles, a mãe deles e eu. Parámos o carro ao lado de outro que tinha lá dentro uma rapariga linda, bem arranjada, de ar limpo.
Comentei: "Olhem que bonita é a menina que está ali dentro daquele carro." -- nesta minha mania de lhes formar o sentido estético.
A mãe saíu por uns minutos, às compras numa loja perto.
E ouvi o mais velho:
"Eu, das meninas, gosto é das maminhas..."
Fiquei sem palavras por segundos, mas:
" Das maminhas? Só gosta de maminhas?Então e a cara?"
Pausa.
"Hum. Gosto das maminhas...nem muito grandes nem pequeninas. Médias. E elas não podem ser gordas. Têm de ser magras e sem pêlos nas pernas".
Mantive-me a olhar para a frente, e respondi:
"Ah!".

dimanche 12 avril 2009

Maria João Pires no CCB

Estive. Mais do que um concerto a quatro mãos foi um affaire à trois.
Maria João Pires iluminada - ...há "qualquer coisa" que desce sei lá bem de onde e a faz tocar assim ...-, Ricardo Castro e o piano. Espectáculo magistral.
Só em Jerez de la Frontera - nos pares dançarinos de flamenco em cada esquina - vi a música e um homem serem, assim, subjugados por uma mulher que, num dado momento, em si concentra toda a Arte do Mundo.

mardi 7 avril 2009

new boy in town

Pouco li sobre a visita de Obama à Europa. E o que vi coube nos 20 minutos de pequenos almoços religiosamente tomados frente à televisão, em zapping. Mas foram suficientes para perceber que por cá andou com aquele ar deslumbrado de menino que chega a um bairro novo, habitado por outros meninos da velha guarda que lhe conhecem (ao bairro) todos os cantos e se conhecem intimamente: as qualidades, os defeitos, as manias e as fraquezas. Recebem o recém chegado de braços abertos e entusiasmados com a novidade, mas todos eles antecipadamente cientes de que ele vai, necessariamente, ter de ser sujeito a rituais de passagem os quais aferirão a sua capacidade para ser aceite no "grupo".
Assim uma espécie de "vamos lá ver como é que ele se vai safar na caça aos gambozinos"....