Sou de uma família tocada pela doença mental.
Conheço, então e assim, os bastidores de grande parte das instituições psiquiátricas de Lisboa e arredores.
Iniciei este percurso ainda novinha, quando acompanhei um irmão meu -bebezinho que tinha tido convulsões febris - ao "manicómio" de Luanda, único sítio onde havia um aparelhometro de encefalografia. Lembro-me do choque que foi deparar com homens e mulheres "zombies" e aterradores.
Com o tempo e os diversos episódios de diferentes protagonistas fui-me habituando à normalidade da anormalidade. Ou à inexistência da normalidade.
Hoje estive no Hospital Júlio de Matos na tentativa de apressar um processo pendente há 3 anos.
Entrei na porta aferrolhada de um dos pavilhões - renovado, colorido, limpinho, aquecido e arejado .
Sabia ao que ia e o que iria esperar. Levei o tricot do cachecol que também está pendente ...não há 3 anos, enfim...talvez há 3 meses. Também ele, o cachecol, colorido.
Era uma hora em que os doentes deambulavam. De olhos um tudo ou nada vazios alguns, outros inquisidores, e outros desafiadores. Eles, os doentes mentais, sabem do seu poder. E eu sabia que o facto de me sentar a tricotar teria algum efeito.
Logo veio uma. Encantada com as cores da lã. Para quem é?
Depois outro. Sentou-se, esse. Para quem é? Mas tem cá alguma filha?...das perguntas passou ao relato do sua vida. ....internado porque tinha cortado os pulsos..seropositivo há 15 anos... findou a cravar-me 60 centimos para um sumo sem que ninguém visse ou ralhar-lhe-iam.
Depois outra a chorar. Parou. Sentou-se. Que lindo!..nada de perguntas...relato integral dos últimos anos da vida dela. Voltou a chorar porque queria ter alta e não lhe a concediam. Mas eu vou fugir. Já fugi tantas vezes. Um dia fui a um shopping, comprei roupa e uma mala, fugi para Madrid...só me encontraram porque fiquei sem dinheiro e fui fazer uma transferência ao banco. Sou bipolar, sabe?...estava no pico!...fiquei doente porque fiz uma gravidez ectópica...não tive mais bebés....Levantou-se e foi atrás da auxiliar para a ajudar a pôr a mesa do almoço.
E outra, menina ainda e linda, que não chorava, nem falava, nem ria, passava lentamente e olhava um olhar de profundo sofrimento.
Quando despachei a minha missão dirigi-me à porta de saída e aconteceu-me o que me acontece sempre nestas andanças. O inevitável ferrolho fechado. E ninguém nas redondezas para o abrir.
É, sempre, o único momento destas minha incursões durante o qual eu ainda tenho alguma cordinha de angústia a vibrar cá por dentro. O momento da expectativa ....da saída adiada....do suspiro de encher o peito ao chegar ao jardim.
lundi 5 janvier 2009
samedi 3 janvier 2009
Hoje zappando apanhei, já a acabar, o "Panorama BBC - No coração do Terrorismo".
Um chefe afirmava que a diferença entre nós e eles é que o nosso aim é a vida; o deles é a morte...e que assim sendo não há consenso possível.
Posto que, de facto, eu quero viver assim, tal qual sou, que viva israel!
Um chefe afirmava que a diferença entre nós e eles é que o nosso aim é a vida; o deles é a morte...e que assim sendo não há consenso possível.
Posto que, de facto, eu quero viver assim, tal qual sou, que viva israel!
Arrastaram-me para o shopping apesar de ter avisado que o trânsito estaria caótico e o espaço atafulhado.
Adormeci entre o Ramalhão e o Autódromo embalada no ronronar da Peugeot que se movia lentamente, em primeira e segunda.
Quase adormeci na fila de entrada para o parque. Salvou-nos um simpático do Mr Parking que nos abriu a fitinha de plástico.
Fomos barradas à entrada do elevador por uma senhora magra e trombuda conduzindo um carro do Continente (eu não sabia que se pode levar aqueles monstros nos elevadores).
Entrámos à segunda tentativa com um casal de gordos. Ela comia um gelado lambendo gulosamente uma colherzinha a meias com ele. Uma vez eu, uma vez tu.
Reparou já dentro do claustrofóbico compartimento que o menino a fixava atentamente.
"Cê mi dá licença que deixi eli mêté o dêdginho no geládô p'rá próvá um pouquinho?".
Adormeci entre o Ramalhão e o Autódromo embalada no ronronar da Peugeot que se movia lentamente, em primeira e segunda.
Quase adormeci na fila de entrada para o parque. Salvou-nos um simpático do Mr Parking que nos abriu a fitinha de plástico.
Fomos barradas à entrada do elevador por uma senhora magra e trombuda conduzindo um carro do Continente (eu não sabia que se pode levar aqueles monstros nos elevadores).
Entrámos à segunda tentativa com um casal de gordos. Ela comia um gelado lambendo gulosamente uma colherzinha a meias com ele. Uma vez eu, uma vez tu.
Reparou já dentro do claustrofóbico compartimento que o menino a fixava atentamente.
"Cê mi dá licença que deixi eli mêté o dêdginho no geládô p'rá próvá um pouquinho?".
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