Na minha África acho que não havia ciganas. Só pretas de panos compridos, meninos às costas e outros correndo atrás delas, redondinhos e luzidios, de passinhos ligeiros. Não paravam. Não hesitavam um segundo. Seguiam as mães nem que caísse o mundo.
Só as vi em Lisboa. (assim como às senhoras sempre vestidas de cinzento e tristes). No jardim da Praça de Londres, sentadas nos bancos ou nas escadas da Igreja.
Tinha medo delas. Das viúvas, velhas, crestadas, de caras castanhas e enormes saias pretas. Talvez porque as criadas me diziam que elas roubavam meninos.
Arrepiavam-me os "Anda cá linda ..anda qu'ê lêi-t'a sina..têns um amori à tua ispera e nã sabis.."
Recusava sempre mas estremecia com os murmúrios que me acompanhavam, pelas costas..."Mau olhado" diziam as criadas...
Hoje ao descer a avenida encontrei-a, sentada num muro baixo, seguramente a mesma de há trinta anos...viúva, velha, crestada e castanha, sentada de pernas abertas e saia preta rodada, apoiada a um bastão, e de mão a agarrar o lenço.
"Anda cá linda!"
E eu disse um "Não quero, obrigada" inteirinho...de voz alta e muito convicta. Não estremeci e nem lhe ouvi os murmúrios...
Já sou, finalmente, crescida - disse-me a voz que me acompanha e me vai dando notícias de mim.
lundi 15 décembre 2008
mardi 2 décembre 2008
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